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Lately

Histórias, opiniões, desabafos

Lately

Histórias, opiniões, desabafos

Outubro 08, 2021

O Contador de Histórias

O desejo de ser mais humilde, empático, solidário, uma pessoa melhor, persiste, sombrio e ácido, corroendo aos poucos e silenciososamente a alma.

Num mundo de gente que não olha para o lado, não faz nada pelos seus irmãos que passam fome todos os dias, como eu não olho e não faço.

Andamos todos neste carro alegórico, neste frio frenesim, sempre à espera dos aniversários e das celebrações para nos encontrarmos.

Vamos esperando pela redenção que nunca chegará, porque o caminho da Humanidade é torpe.

Somos todos responsáveis.

E todos iremos, sem darmos conta, para a cova funda do Armagedão.

Setembro 28, 2021

O Contador de Histórias

É tão interessante ver uma mulher a atraiçoar as suas pares, ou melhor, a boicotar qualquer hipótese de contrariar a ideia de que as mulheres são más umas para as outras, num reality show de grande audiência da televisão generalista nacional. É isto mesmo meus caros! A concorrente está a mandar para o galheiro o esforço de tantas mulheres, numa já longa caminhada, sobretudo porque usa a bandeira da sororidade e utiliza uma plataforma vista por milhões.

Contra a dificílima batalha pela igualdade, não discriminação, e outras lutas desta vida (pelo andar da carruagem, e com estes contributos, nem nos próximos dois séculos haverão mudanças e progressos), temos estas infiltradas, que não são mais do que espias contratadas pelos homens, a boicotar o sucesso das verdadeiras feministas. A concorrente do famoso reality é exímia na arte da mesquinhez e da maledicência, corroendo as relações das restantes mulheres da casa através da intriga. Que coisa tão linda!

Pode dizer-se que estará a exemplificar o que não se deve fazer, mas não me parece que a leitura dos espectadores seja essa. Por outro lado, podemos afirmar que não é por ser uma mulher, há pessoas assim em todo o lado. É verdade, mas a conclusão provável de quem assiste a este desatino é a de que as mulheres são todas iguais e tramam-se umas às outras.

Os machistas esfregam as mãos, mas eu não. É lamentável que uma mulher, supostamente inteligente, se sirva da sororidade para benefício próprio e tenha um comportamento que contraria a causa defendida. A senhora parece um elefante numa loja de cristais!

A sensação que tenho é a de que, no "apalpar do terreno" e no anelo de se posicionar no jogo, atirou com aquela palavra e... "UPS, disse isto e agora tenho de manter a coisa até ao fim, custe o que custar." Custar-lhe-á caríssimo: cem mil euros.

Tenho dito!

Setembro 16, 2021

O Contador de Histórias

Não posso deixar de me referir, pela enorme alarvidade, ao que recentemente se passou com um certo psicólogo com direito a tempo de antena num canal generalista da televisão portuguesa (conduta que já tem, infelizmente, um historial significativo).

O despautério que aquela criatura vomitou há uns dias é, no mínimo, uma ofensa aos que lutam, todos os dias, pelos direitos das minorias, sejam elas quais forem. As declarações absurdas reflectem um gravíssimo desconhecimento da realidade e o vício comum de fazer generalizações.

Caracterizou os homossexuais como promíscuos, velando por completo o facto de que a promiscuidade é um comportamento que pode assistir a qualquer pessoa e não uma característica agarrada à orientação sexual; justificou a discriminação dos homossexuais na dádiva de sangue alegando esse comportamento promíscuo, como se os heterossexuais não pudessem ser, em nenhuma circunstância, promíscuos. Disse ainda que um concorrente de um reality show é uma "bicha desocupada" (concorrente esse que parece ter levado à Assembleia da República uma proposta para a eliminação dessa discriminação).

Adsurdos deste género têm sido hábito no discurso desta criatura, como o de dizer que 75% das pessoas que consomem canabis envolvem-se sexualmente com pessoas do mesmo sexo, concluindo que sem a canabis não o fariam, e o de associar o veganismo à insegurança e à anormalidade.

Por incrível que possa parecer, temos assistido a condutas muito pouco deontológicas por parte de profissionais da área da psicologia, como a da Dra. Maria José Vilaça, que há uns anos foi notícia por defender e praticar a cura para os homossexuais.

Meus amigos, às vezes prefiro pensar que andamos todos com uma valente bebedeira e que, afinal, estes disparates nunca foram ditos.

Setembro 16, 2021

O Contador de Histórias

7 de outubro. Na sala dos professores, no primeiro piso do pavilhão principal, Amélia esbracejava e deslocava-se de um lado para o outro, fazendo lembrar uma avestruz.

 ― Como é que é possível?! ― atirou, enervadíssima. ― Ainda não descobriram quem me fez aquele… aquele disparate!

Estava transfigurada, como se de um dragão mitológico se tratasse, quase a deitar fogo pelas ventas.

 ― Calma, Amélia, que havemos de saber ― respondeu António, pouco convencido.

Era professor de matemática e tinha por hábito iniciar as suas aulas com alguns exercícios de ioga. Os alunos adoravam-no. De facto, não estava muito empenhado em encontrar os responsáveis pelo estrago feito na vestimenta da colega, sobretudo porque tinha mais que fazer.

 ― Calma?! CALMA?! ― A professora, irada, esbugalhou os olhos. ― Estragaram-me a saia! Um conjunto que me custou uma fortuna!

 ― O que interessa agora é assegurar que estes... fenómenos não se repitam ― disse António, fazendo um trejeito de sobrancelhas para outros dois docentes que estavam a assistir à conversa.

 ― O meu tailleur ficou arruinado! ― afirmou Amélia. ― Quem é que me resolve o problema? Quem? Como Diretor de Turma, tens de fazer alguma coisa!

 ― Amélia, o que é que queres que se faça se ainda não se descobriu o responsável pelo sucedido?

 ― Não sei, nem me interessa! O que eu quero é que me resolvam o problema!

 A investigação estava difícil, porque a vaga de partidas tinha, entretanto, parado. Já não seria fácil apanhar alguém em flagrante. E, por outro lado, era complicado obter testemunhos de alguma coisa, porque a qualquer pergunta sobre o assunto, os alunos respondiam sempre com um angelical «não sei». Mesmo que soubessem, era improvável que denunciassem alguém.

 E a vida escolar seguia o seu curso, agora com maior sossego. O professor António já tinha refletido sobre a repentina quietude. Passavam, ainda, poucos dias dos acontecimentos, mas achava estranho ter deixado de encontrar graxa nas pegas das portas das salas de aula e pastilhas elásticas nas torneiras das casas-de-banho.

 Para ele não fazia sentido perder muito tempo a encontrar culpados, porque os adolescentes são assim mesmo, gostam de fazer tropelias. E quando lhe contaram a história da «mistela que cheirava a Marrocos», fechou-se na casa-de-banho a rir às gargalhadas. Claro que ninguém soube disto.

 Entretanto, tinha ficado sozinho, porque os outros dois professores tinham saído para dar aulas e a professora Amélia tinha também deixado a sala de professores para regressar a casa, pois terminara o seu dia de trabalho. Pela janela, António conseguia ver o estacionamento à frente do portão da escola, e assistia agora à fúria da desequilibrada criatura, com dificuldade em encontrar a chave do carro que procurava na mala que tinha a tiracolo. Às tantas, começou a dar murros na porta do Renault. Depois, encostou-se ao veículo, numa pausa que demorou uns segundos. Olhou para a chave que já estava na mão, voltou-se, inseriu-a na fechadura, com movimentos bruscos que dificultaram bastante a tarefa de a abrir, deu mais alguns murros na porta, mas lá conseguiu entrar e sentar-se ao volante. «Credo, que a mulher está mesmo descontrolada», pensou.

 O professor sorriu ao ver o carro fazer marcha atrás, aos soluços, até seguir para o Largo da Igreja, a uma velocidade um pouco excessiva para o trânsito local.

 

In "Merinda", Miguel Mósca, Edições Vieira da Silva, 2019

Setembro 10, 2021

O Contador de Histórias

30 de setembro. No dia seguinte ao susto, os dois amigos quase não falaram durante o primeiro tempo de aulas. Mas, logo ao intervalo, abalaram da sala, preparados para debaterem o acontecimento do dia anterior. Queriam começar a conversar, mas chegou Margarida, a miúda mais estudiosa da turma, que lhes perguntou como tinha corrido a ficha de ciências.

 ― Consegui responder a tudo ― disse a garota, ao mesmo tempo que sorria para João, que considerava o rapaz mais giro da turma ― E vocês?

 ― Acho que me correu bué da bem ― respondeu João, apressado. ― Mas agora vamos comer qualquer coisa ao bar, não é Ricardo? ― perguntou, enquanto dava pequenas biqueiradas no pé do amigo, para ver se ele dizia alguma coisa, em concordância.

 ― Ainda bem ― disse Margarida. ― Também vou, assim tenho companhia.

 Claro que, em dez minutos, e com tanto paleio da colega, não tiveram mais oportunidade de falar sobre a sombra que tinham visto no dia anterior.

 No intervalo maior, sem se atreverem a ir para o tal pavilhão onde tinha tido lugar o acontecimento estranho, muito esquisito e mesmo assustador, que eles não conseguiam explicar, procuraram um local com um pouco de movimento, mas onde pudessem conversar sem que os outros alunos, ainda assim, se apercebessem do assunto.

 ― Mas tu viste o mesmo que eu Ricardo?! ― perguntou João, tentando disfarçar o pavor que estava a começar a sentir. ― Aquilo parecia uma pessoa… e os cabelos… e tinha um chapéu, de certeza que era um chapéu, daqueles de bruxa!

 ― É pá ― respondeu Ricardo, muito espantado ­―, o que é que estás para aí a dizer… uma bruxa?! ― Não queria acreditar no que tinha acabado de ouvir da boca do amigo.

 ― Ricardo ― disse João, começando a falar baixinho ―, eu até sonhei com aquilo. Eu vi muito bem a sombra e ainda não parei de me lembrar do barulho que aquilo fez, quando levantou voo.

 ― Levantou voo?! ― disse Ricardo, que começou a ficar vermelho do pânico que começara a sentir. ― Levantou voo?!

 ― Xiiiiu! ­― atirou João. ― Ninguém pode saber disto! Aquilo era uma bruxa, tenho a certeza!

 ― Achas mesmo? ― perguntou Ricardo, muito assustado. Nem queria acreditar que o amigo estava a colocar aquela hipótese.

― É bué estranho, mas tenho a certeza! ― acrescentou João, olhando o amigo nos olhos. E, de repente, lembrou-se. ― E a velha que está sempre a falar da bruxa?

 ― Sim… e então?! Eu nunca a vi ― disse Ricardo, arregalando os olhos. ― Dizem que a mulher é doida, portanto…

 ― Eu também nunca a vi, mas já me contaram sobre o que ela costuma dizer, e se calhar não é tão doida assim! ― rematou João.

 O assunto principal dos tempos livres, nesse dia, foi a bruxa, mas começaram a recuperar a vontade de pregar partidas, o que os deixava eufóricos.

 Nessa tarde não tiveram aulas, e resolveram ir para casa de Ricardo, porque seria ali o sítio ideal para mais uma barafunda, uma vez que se tratava de uma vivenda e não haveria perigo, pensaram eles, de incomodarem a vizinhança. Mas eis a razão principal: desta vez, as vítimas seriam os próprios pais, e a irmã, de Ricardo.

 Tinham recolhido dez grilos, que encontraram debaixo de dois tijolos, num terreno situado nas traseiras da escola. Guardaram-nos num frasco de vidro, cuja tampa foi perfurada com muito cuidado, para que os bicharocos pudessem respirar.

 Subiram ao primeiro andar da moradia. Entraram no quarto principal, e colocaram cinco grilos dentro da cama dos pais. Depois dirigiram-se ao quarto de Rita, uma adolescente que já não tinha grande paciência para as brincadeiras do irmão, e colocaram os outros cinco grilos dentro dos lençóis de flanela da cama colorida, coberta com uma colcha de patchwork.

 Os dois amigos foram, de seguida, andar de bicicleta, não adivinhando que tinham acabado de armar uma das mais inesquecíveis confusões das suas vidas.

 Eram dez e meia da noite. A Rita estava a lavar os dentes e preparava-se para ler, deitada na cama, até adormecer. Os desgraçados dos pais, Álvaro e Mimi, já estavam também na casa-de-banho, prestes a deitarem-se.

 O malandro do Ricardo fingia estar a dormir, de luz apagada, mas estava à espera, com o telemóvel em chamada estabelecida com João, para que o outro pudesse ouvir toda a reação.

― Espera que está quase… ― ia dizendo.

 Se foi obra do acaso ou da Providência, não sabemos. Mas o facto é que as três inocentes criaturas foram ao mesmo tempo para a cama, num sincronismo inacreditável.

 A partir desse momento, a confusão instalou-se naquela casa e nas redondezas. Foram tantos e tão altos os gritos que, naquela rua, toda a gente ficou em sobressalto, numa aflição tão grande, por não saberem de onde partia tamanha berraria.

― Ai, meu Deus, o que será que estão a fazer àquela gente?! ― dizia uma das vizinhas, acabando de descobrir de onde vinha o alarido. ― Vamos lá ajudá-los! Chamem a polícia!

 Nem Ricardo, nem João, do outro lado do telemóvel, estavam a acreditar em tamanha barafunda. O júbilo inicial transformou-se em alarme, quando começaram a ouvir ao longe as sirenes dos bombeiros. E quando a mãe passou no corredor, amparada pelo pai, aos ais, e a irmã logo atrás, num pranto, a arrastar-se com as mãos na cabeça, o alarme passou a arrependimento e pavor.

 O resultado tinha ultrapassado, por demais, todas as expectativas dos dois amigos. Até nos castigos que o Ricardo levou. Sem televisão, sem tablet e sem computador durante um mês, muita sorte teve em não ficar sem o telemóvel. Mas estes castigos não faziam grande diferença, porque do que ele mais gostava era da rua, da bicicleta e da liberdade de andar sempre para todo o lado com o seu melhor amigo João.

 Estavam a um mês do dia das bruxas.

 

In "Merinda", Miguel Mósca, Edições Vieira da Silva, 2019

Setembro 07, 2021

O Contador de Histórias

Hoje, mais do que em qualquer outra altura, é preciso dizer não ao Mal. O Mal que persiste em revelar-se na segregação, no repúdio do diferente, na crítica ao que está fora da nossa baliza de crenças, princípios, valores, opiniões.

Desde o 25 de Abril não evoluímos grande coisa, 47 anos de pouca aprendizagem e progressão. As mentalidades continuam pequeninas, a achar que um emprego no supermercado ou a lavar escadas é para gente rasca, e que só se é alguém com um curso superior e um cargo público. O atraso é tal que continuamos a utilizar o Dr. e o Eng.º como prova de que temos nível, estirpe, linhagem. Isto é para gargalhar bem alto! Lutamos pelo título como cão por osso, ao ponto de discutirmos com quem não se nos dirija dessa forma. Altivos, fúteis, mesquinhos, a desfilar carros, roupa, joias, e a publicar fotos de férias no facebook e no instagram.

Para não falar no racismo, idadismo, homofobia, transfobia, ciganofobia, e em tantas outras formas de discriminação. Só porque se é diferente. Destilam-se ódios e críticas nas redes sociais, só porque sim. Haja paciência para tanto imbecil.

O Matay dizia, há dias numa entrevista ao Goucha, que daqui a 50 anos estamos na mesma. Se assim for, olhem que merda!

Estamos a precisar, mais do que nunca, de empatia, e de espalhar Amor.

Eu tenho um sonho: que daqui a 50 anos esteja tudo diferente!

Julho 23, 2021

O Contador de Histórias

O feminismo tem sido, nos últimos anos, muito criticado, sobretudo com o argumento de que o papel da mulher nos dias de hoje é muito diferente do que há uns anos. Dizem que a mulher é mais forte, tem palavra e tem os mesmos direitos que o homem. Portanto, qualquer movimento feminista não tem razão de ser e é extremista e radical.

Pura mentira!

Estamos muito longe da igualdade de género. A mulher continua a ser objectivada, marginalizada e menosprezada.

Uma mulher de sucesso é um alvo a abater e todos os motivos ilógicos servem para o combate. Motivos que nunca seriam utilizados contra o homem.

Feminsimo sempre, enquanto a desigualdade existir!

Junho 25, 2021

O Contador de Histórias

Capítulo IV

 

   Início de Dezembro. Passados muitos meses desde a última vez, fomos sair à noite para o Bairro Alto. Meu Deus! Este era, há muitos anos atrás, um hábito muito ridículo, o de ir todas as sextas-feiras, em procissão, para a night. Às vezes penso nos comportamentos que tive ao longo da minha juventude e a conclusão inevitável aflora sempre, amarga. Fui, na verdade, condicionada pelos preconceitos inerentes ao meu grupo de amigos. As saídas à noite foram, quase sempre, motivadas pela posição no grupo, e não pelo puro prazer de sair e me divertir. Era in sair com os amigos e contar os acontecimentos e peripécias no dia seguinte. Sinto-me sempre desconfortável com estes pensamentos. O que me consola é que não fui a única a agir assim. Acho que com a maioria dos meus amigos da altura se passou o mesmo. E com a maioria dos adolescentes de agora. Sei que esta consciência acaba por chegar, mais cedo ou mais tarde. Se não chegar, é sinal de que sempre fomos genuínos, ou de que, o que é mais certo, ainda não crescemos e, provavelmente, continuamos com a mesma forma de estar, ridícula.

   Sair à noite com os amigos era, agora, redentor, como que uma lavagem de alma. Era eu mesma, ao contrário do que acontecia há dez anos atrás. Que tranquilidade. Não queria provar nada a ninguém. E o grupo de amigos tinha sido expurgado. Nem metade lá estava.

    Estava a ser uma noite mágica. Fomos jantar a um típico restaurante atascado, e aproveitámos todos os bocadinhos do tempo, que passava depressa. Saboreava toda a comida que estava a passar pelo prato, e sorvia toda a verborreia dos meus convivas. Estava a adorar os risos, a galhofa, os comentários, as ideias trocadas, a estupefacção em relação ao relato de tanta atribulação dos últimos tempos, a íntima e comum satisfação por ainda sermos um grupo de amigos.

   Todos estávamos mudados. Mas tínhamos a mesma essência.

   Madalena estava radiante, liberta, pela primeira vez, do pesadelo pelo qual tinha passado.

   — Já viste o borracho em que se tornou o Filipe, desde que cortou o cabelo? — perguntou ela, entusiasmadíssima.

   — Já, já. E também já reparei que pareces estopa, minha querida!

   Riu à gargalhada e retorquiu: — Ó meu amor, a vida é assim, vão uns e vêm outros. — Mais gargalhadas, com o vigor dos vinte anos que já não tinha. Chegou-se para mim, olhando-me de modo intenso, e sussurrou: — Estou feliz minha querida. Obrigado por estares sempre lá... — Não conseguiu dizer mais nada, porque a emoção brotou. Chorámos.

   — Olha, olha, estas duas estão bonitas, estão! — disse o João, ele também já um pouco entornado.

   Este João era extraordinário. Estava-se a borrifar para a opinião dos outros, e reagia militantemente a qualquer manifestação homofóbica. Tinha a vantagem de ser enorme e musculado, o que fazia com que, normalmente, qualquer pensamento agressivo não passasse à acção. Normalmente…

   Houve um episódio memorável no Hard Rock Cafe, sobretudo porque eu nunca tinha assistido ao bullying de um homem a outro homem, e também nunca tinha visto o João a reagir. Ao reparar na carinhosa festa que o meu amigo fez na cara do rapaz que estava a servir-nos os cafés, de quem já tinha sido namorado, um homem arruivado e encasacado, com um cachecol enrolado ao pescoço, sentado na mesa ao lado, disse, para quem o quisesse ouvir: “Olha agora, temos aqui gays”. “Se está incomodado com a minha presença, tem bom remédio”, retorquiu o João, sereno. Esta resposta fez ruborizar o estúpido, que se levantou e deu um empurrão ao meu amigo. Claro que o passo seguinte foi um knockout de um só murro. O néscio ficou estendido no chão. O segurança também era amigo do João e deixou-nos sair, perante o alarido que os amigos do fulano estavam a fazer: "Chamem a polícia!", gritavam.

   Nesta noite de copos estava muito bem-disposto. Era bonito. Às vezes eu olhava para ele e desejava-o. E acho que ele sentia o mesmo. Mas nunca falamos sobre isso. A sensação que eu sempre tive era a de que ele também me desejava. Havia qualquer coisa na nossa troca de olhares que me dizia isso mesmo.— E como é que é, minha linda? Porque é que o teu mais-que-tudo não veio connosco? — perguntou ele à Madalena, já no final do jantar.

— Porque ele já não é o meu mais-que-tudo.

— Ham?! Acabaram?!

— Pois, já não namoramos.

— É pá, mas estiveram juntos tanto tempo…

— É assim a vida, o parvalhão já não gostava de mim. Foi o melhor para os dois.

— Sim, rapariga. E tu és linda de morrer e tens de te dar valor.

— És tão querido João, adoro-te!

— Mas é verdade! — disse. Fez uma curta pausa, para logo a seguir atirar: — Eu adoro-te como amigo, porque senão…

— Não sejas parvo! Alguma vez?! — disse a Madalena, fazendo com que o João arregalasse os olhos.

— Então? Era assim tão difícil para ti?

— Claro! Achas?! Adoro-te e não iria nunca estragar o que temos. E estavas a dizer isso mesmo, estavas a falar na nossa amizade…

— Pois, mas seria assim tão difícil?! — insistiu.

— Não sejas criança — disse a Madalena a rir à gargalhada. — Estás a sentir o teu ego enfraquecido, é?

   O João estava já a acenar para o homem que tinha avistado ao longe, para fazer com que ele se dirigisse para a mesa onde estávamos sentados. Uns instantes depois João apresentou-o: — Malta, este é o Ricardo. Ricardo, estes são os amigos de que te falei, portanto, apresentem-se e estejam à vontade.

   Ricardo era parecido com o João só no tamanho. Era loiro e tinha olhos verdes. O João era moreno e tinha olhos castanhos. Mesmo no Inverno, parecia acabado de vir da praia, sempre que nos encontrávamos com ele.

   Quando o Ricardo se sentou ao lado do João, cumprimentaram-se com um beijo na boca sem qualquer constrangimento.

   Este grupo de agora é, de facto, especial. Cada um faz a sua vida como bem entende e não se preocupa com a opinião dos outros. Não é muito comum haver este tipo de relacionamento entre amigos. Eu conheço pessoas que não funcionam assim no seu núcleo de amizades mais próximas. Mas nós fazemos mesmo um esforço para sermos transparentes uns com os outros.

— Portanto, não tenho hipótese… — segredou o João ao ouvido de Madalena. — Que pena…

— És mesmo um parvalhão — respondeu ela. — O rapaz aqui ao teu lado, e tu a dizeres-me estas coisas…

— Ele sabe como eu sou, e como tu és mulher, não tem mal…

— Olha que porco! — retorquiu. — Pois é meu querido, mas somos amigos e eu não vou, não vou mesmo, misturar as coisas! — respondeu com uma assertividade que não deixava qualquer margem para dúvidas. E ele sabia-o.

— Sabes que no outro dia encontrei um amigo que talvez gostasses de conhecer. É giro que se farta.

— Ai não! Não vão começar aquela fase de quererem arranjar-me namorado, pois não? — disse irritada. — Deixem-me sossegada!

— Calma rapariga, só me lembrei do rapaz. Chama-se André e é uma pessoa linda, por dentro e por fora.

— Está bem, deixa ser, deixa-o estar porra…

Entretanto, mergulhámos na noite, a percorrer vários bares. E antes do Natal não nos reunimos mais.

Junho 17, 2021

O Contador de Histórias

Capítulo III

 

 

   Num Domingo de Outubro encontrámo-nos na Avenida de Roma. Andámos por ali, sem rumo definido, só com o objectivo de desabafar uma com a outra.

   Falámos sobre o que nos ia na alma, ao mesmo tempo que fizemos comentários sobre os homens que passavam e sobre as montras de roupa. É curioso que, quando as mulheres que eu conheço falam dos homens, não o fazem da mesma forma que os homens quando estes falam das mulheres. O sentimento não é o mesmo. Ou se é o mesmo, não o escondem dos amantes. Acredito que seja assim para a maior parte de nós.

   Entre as duas, as apreciações não penetram no campo da nojeira dos comentários que os homens tecem. A maioria deles, mais ou menos discretos, são ordinários.

   Meu Deus, como são estúpidos. Basta passar por um grupo de homens que vão almoçar no intervalo do trabalho e escutar o que dizem para verificar que, mais uma vez, falam de mulheres. Muitas vezes atiram-nos ignomínias. E esta é uma faceta estanque, que não transparece na vida do santíssimo lar, para a respectiva mulher.

   Claro que este lado tão promíscuo e imundo não poderia ser transposto para as conversas ao serão e ao fim-de-semana, com a mulher e os filhos. Tem de ficar bem escondido, de segunda a sexta-feira, das nove às dezoito.

   Parece que esta gente anda a viver duas realidades distintas sendo que, no trabalho, com os colegas, ou no tempo livre, com os amigos, são pessoas expansivas, libertas e arejadas, tão arejadas ao ponto de a família ser arrastada para fora da memória pela ventania anestésica do vastíssimo campo visual.

   E, em casa, no conforto dos chinelos e do roupão, são recatados e uns fieis mentirosos. Haverá excepções?

   Parece que as mulheres estão a adquirir algumas características masculinas, das mais ridículas, mas tenhamos a esperança que seja uma percentagem muito reduzida. Não vamos, de oprimidas, passar para a estroinice e para a intrujice, sob a capa da emancipação.

   Esse seria um destino bastante redutor, o de passar de uma existência inteligente, cheia de sensibilidade, argúcia e paixão, para um lamaçal de mentira. Podemos experimentar vários homens ou mulheres, sem caminhar na falsidade.

   Bem sei que fomos escravizadas pelos homens e pelos seus malvados bons costumes, que só serviam para nós, mas a emancipação não significa perda de faculdades mentais!

   — Os homens são todos iguais — disse Madalena, com a habitual certeza que acompanha esta afirmação.

   —  Pois... sei lá, será que há excepções? Sabes, é muito fácil meter tudo em gavetinhas e catalogar as pessoas sempre da mesma maneira.

   — Ó Mafalda, tu não vês o Vitor! Está cada vez mais próximo do típico modelo masculino. — A sua expressão já estava a assumir a raiva que lhe mastigava as entranhas.

   — Tudo bem, pode ser que sim, mas ainda não falaste a sério com ele, não lhe disseste que estás insegura. Não lhe perguntaste o que é que ele anda a fazer.

   — Tenho medo.

   Fervilhava no meu espírito a inquietação de Madalena. Eu sentia que o Vitor fazia parte do mesmo rol de homens e que não seria a excepção.

   Depois de chegarmos à conclusão de que estávamos fartas do assunto, resolvemos divertir-nos e começar a fazer planos para o próximo fim-de-semana. Decidimos fazer uma viagem juntas para Portalegre, onde já tínhamos ido há bastante tempo. Seria bom passar pelos locais que tanto recordámos e comer aquelas migas deliciosas.

   Madalena tomou a decisão de não deixar passar mais tempo. Teria uma conversa séria com Vítor.

   Na segunda-feira seguinte, depois do trabalho, perto das sete horas da noite, foi ter a casa do namorado. Mal abriu a porta este fez logo uma expressão aparvalhada, esboçando um sorriso como que a pedir desculpa. Ele já tinha tentado falar com ela várias vezes, desde o último arrufo. Ligava para o telemóvel, ela não atendia. Falava com a D. Conceição pedindo para a filha lhe ligar. Este comportamento baralhava-a.

   Beijaram-se e ele avançou colocando os braços à volta da cintura de Madalena, apertando-a contra si. Estava a pedir sexo com uma capa de romantismo. Este era mais um dos tais pedidos de desculpas. Ela permaneceu calada por alguns segundos, olhando-o nos olhos e afastou-se, caminhando de seguida para a sala. Antes de se sentar, disse-lhe que tinham de conversar. Ele olhou-a, sério. Madalena apoderou-se do comando da televisão e desligou o estafermo do aparelho, sentando-se primeiro do que ele. Vitor sentou-se à beira do sofá com os dedos das mãos entrelaçados.

   Decidiu falar: — Eu sinto... desde há algum tempo a esta parte, que estás diferente.

   Vítor olhou-a com um ar surpreendido: — Diferente como?

   — Estás diferente. Ages comigo de forma diferente, estás frio. O teu comportamento mudou.

   — Eu não estou a perceber... o que é que se passa?

   — Nada. Só estás a anos-luz daquilo que eras para mim! Já não te interessa muito estar comigo, pois não? — Já que tinha começado, seria para doer.

   — Ó pá...é assim, eu não estou a perceber Madalena, tens andado esquisita e agora vens com essas coisas...

   — Claro, eu é que estou esquisita! Mas não sou eu que não quero namorar e sair para jantar fora e não sou eu que demonstro já não amar!

   — Ah, e eu demonstro isso? — perguntou, perplexo e encurralado.

   — Já não me amas pois não?

   — Mas porquê esta conversa — perguntou, aflito. — Explica-me!

   — Porque tu já não me amas! Tens outra?

   — O quê?!

   — Tens outra?

   — Não digas disparates! — ele levantou-se.

   — Responde! — ela levantou-se.

   — Não! Não tenho!

   — Não me estás a mentir?

   — Não tenho ninguém porra! — gritou.

   — Então porque é que não me ligas?

   — Mas eu ligo-te Madalena, eu ligo-te! — Vitor estava vermelho de cólera. E gritava.

   — Não me venhas com histórias! — Ela despejava as palavras, inclinada para a frente e com os punhos cerrados.

   — Mas que histórias Madalena, estás a ser estúpida! — Já se lhe notavam as veias do pescoço dilatadas. — Vamos falar com calma, por favor?

   — Não vale a pena, sabes. Porque eu acho que esta relação está nas últimas. — E decidiu arriscar. — Eu vi as tuas mensagens no telemóvel.

   Para surpresa dela, ele ficou em silêncio por uns instantes.

   — O que é que disseste? — perguntou Vitor, desarmado.

   — Vi as mensagens no teu telemóvel — repetiu ela, com uma firmeza encenada. Estava a fazer de tudo para manter a postura.

   — Agora andas a vasculhar o meu telemóvel?

   Madalena não estava preparada para ouvir esta pergunta, que lhe deu a certeza de que as desconfianças tinham fundamento. E, com os olhos húmidos, continuou a mentir: — Pois é, vasculhei.

   — Mas o que é que tu viste, Madalena? — perguntou Vitor com a voz trémula. — Merda… merda! Eu não queria…

   — Eu não vasculhei nada meu estúpido! Eu não vasculhei… — começou a chorar.

   — O quê? — Vitor olhava-a, espantado — o quê?!

   — Eu desconfiava, mas no fundo não acreditava que fosses capaz! — Madalena gritava a plenos pulmões. — Estúpido! Estúpido!

   — Pára… pára!

   — Para quê a mentira, Vitor? Porque não me disseste que seria melhor acabar?

   — Madalena…

   — Cala-te! Vou-me embora! — atirou, com a raiva a sair-lhe dos poros. — Espero que não me tenhas transmitido nenhuma doença, com a merda que andaste a fazer!

   Voltou costas e deixou-o, com uma decisão que não voltaria atrás. As recordações martelavam-lhe a cabeça no caminho para casa, numa condução nublada pelo cloreto de sódio, e nessa noite não dormiu até a mãe lhe dar um comprimido e ficar com ela deitada na cama. Dormiram abraçadas e de mãos dadas.

   Dias depois Mafalda enviou uma mensagem a Vitor para combinar uma ida lá a casa, para tirar as coisas dela, de preferência quando ele lá não estivesse.

   Passadas três semanas, Madalena foi ao apartamento, não respeitando o combinado. Apesar de terem terminado o namoro desta forma zangada, ela queria falar com ele.

   E falaram sem qualquer tipo de rancor da parte dela. A conversa foi serena, sem acusações e Madalena sentiu que foi o encerramento de um capítulo da sua vida, e foi menos doloroso do que ela pensava.

   Depois foi para Carcavelos e terminou a tarde a olhar o mar, sentada na esplanada a beber um gin tónico.

   Quanto ao Vitor, contactou-a pelo telemóvel mais duas vezes depois deste último encontro, a implorar que ela reconsiderasse, que voltasse para ele, porque ele já não tinha nada com a outra, que tinha sido um disparate muito grande e que não voltaria a ser estúpido e a cometer aquele erro.

   Madalena ouvira estas palavras com uma sensação estranhíssima, de não conhecer o homem com quem tinha namorado tanto tempo. Não parecia a mesma pessoa a falar. Era um discurso tão vulgar, daqueles que sempre ouviu nas novelas ou leu nos livros, e que não vira naquele que tinha sido o seu amor.

Junho 07, 2021

O Contador de Histórias

Capítulo II

 

 

   Conheci Madalena numa fase complicada da sua vida, tinha ela 19 anos. Nessa altura já estava a ser atormentada por um mar de dúvidas em relação aos estudos e ao futuro profissional. Apesar de tudo, detectei nela um fulgor persistente, característica daquelas pessoas que, a cada dissabor, a cada contrariedade, se levantam com uma renovada energia.

   Gostei logo dela. Senti uma confortável empatia logo que trocámos as primeiras palavras. Creio que foi uma sensação mútua e mantivemos, desde aí, uma profunda amizade.

   É um relacionamento transparente, que se traduz numa absoluta sinceridade. Partilhamos até as mais duras opiniões sobre a outra, e não guardamos nenhuma crítica, por mais azeda e cortante que seja. Achamos que só assim é que se consegue manter um fiel e duradouro vínculo de afecto. Um vínculo tão puro que nos torna quase irmãs, faltando apenas a ligação de sangue. Há irmãs que não são tão próximas quanto nós. Parece sermos fruto de uma gravidez gemelar.

   Seria uma vã tentativa a de esconder o nosso íntimo uma da outra porque temos em comum a tal capacidade apurada de percepção. Adivinhamos os nossos pensamentos e os de algumas pessoas. Pena é que não consigamos canalizar este dom para quem queremos, e quando queremos. Vamos vivendo assim, confrontadas com o que a vida nos oferece, como que resignadas com esta sina que, na maioria das vezes, é violenta.

   Ninguém consegue imaginar o que é isto de saber o que os outros estão a sentir num dado momento. O ódio, o desespero, a mesquinhez, o mal querer. Dá vontade de desaparecer, para o mais longe possível. E o mal-estar não passa logo. Temos de esperar. E, depois, a torturante memória não nos deixa em paz.

   No fim de Setembro de 2001, após um Verão atípico, marcado por noites frias, Madalena foi ter a casa de Vítor, depois do trabalho, estimulada pela ideia de jantar fora, ainda para mais numa sexta-feira, num restaurante com um ambiente romântico, pensando que seria um bom fogo para a relação que há muito estava morna.

   Podia ser o princípio de uma excelente noite.

   Quando ele abriu a porta estava em cuecas, vestia apenas uma camisola de manga curta e calçava uns chinelos que já não eram beijes.

   — Olá amor — disse ele. — Entra. Vai dar futebol — atirou, começando um corte preventivo das hipóteses de ela dar conta do seu sossego.

   Tinha chegado a casa há cerca de meia hora e já tinha emborcado uma cerveja, dois sumos de pêra e comido, sôfrego, dois pães de Mafra com manteiga, queijo e fiambre. “Estás a ficar obeso”, pensou ela, a olhar para a lipídica protuberância que se estava a formar no ventre.

   — Sabes uma coisa? —  disse entusiasmada. — Vamos jantar fora.

   — Quando, gorda? Hoje? — O namorado estava a ver a sua noite de repouso ir por água abaixo.

   — Claro! — Já adivinhava o que ele queria mas continuou. — Vamos a um restaurante indiano muito agradável, já lá jantei com os meus pais e é fabuloso, tem um ambiente espectacular.

   — Ó Madalena, porra, eu quero ficar sossegado! — chinfrinou de repente, colocando a mão sobre o comando da televisão pousado no braço do sofá. — Estou cansado, quero ver se não me chateio muito hoje. Vai dar o jogo daqui a um quarto de hora.

   Madalena não suportou esta reacção e disse: — Muito bem, com que então queres ver se não te chateias... Está bem!

   — Pronto, agora ficas zangada...

   — Não, deixa estar, eu entretenho-me sozinha.

   — Ó Madalena...

   — Ó Vítor, deixa estar, ‘tá bem! — Estava a ferver. Mais uma vez ele não queria sair com ela. “Isto está a ficar lindo”, pensou. “ Prefere ver televisão a sair comigo... se é assim agora, como será depois do casamento?”.

   Conheceram-se na universidade cinco anos antes. Eram de turmas diferentes mas viam-se na biblioteca e no refeitório, também bastantes vezes nos corredores, e começaram a cumprimentar-se, no meio da algazarra de vozes e ruídos, dos talheres a cair, dos pratos carregados de péssima comida e da sinfonia de panelas e tachos.

   A atracção despertou. Poucos meses passaram até o namoro começar, com o habitual beijo lento, táctil e experimental, sempre húmido e trémulo. Tanto aparato...

   — Olha Vítor, eu vou para casa — disse.

   — Ó pá, vamos jantar, pronto. — O prato frio.

   — Por amor de Deus, não faças o favor!

   — Então o que é que queres, Madalena... — disse, num tom teatral e suplicante.

   — Vou para casa, deixa-te estar sossegado, na tua casinha, que eu vou à minha vida! — cuspiu a gritar. Olhou-o e disse: — Estou farta e quero acabar com esta merda de coisa que temos um com o outro. — Pegou, num movimento ágil e rápido, no casaco que tinha colocado no sofá, levando colado um engordurado guardanapo de papel, e saiu porta fora.

   Ele ficou a olhá-la, sem expressão.

   Pela primeira vez tinha deixado transparecer para Vítor que sabia que ele já não era o mesmo e que não estava satisfeita. Cinco anos... Porque é que as pessoas mudam? Porque é que os homens mudam? A entrega, a partilha, a cedência, para quê?

   É tudo tão lindo no princípio, a construção da teia, o ardil a ser cozinhado. Tudo tão preenchido de tolerância, a luz dos teus olhos tão intensa.

   Na rua, a passar por entre os carros estacionados, a cruzar-se com caras sérias de gente fechada, a calçada suja, os manequins sem cabeça das lojas de roupa, os cheiros de sempre, não quis saber de mais nada.

   Sentia-se cansada. O incómodo da consciência de que o seu namoro não estava bem existia há algum tempo e isso estava a tornar-se mais evidente. Mas não tinha certezas... não conseguia sentir nada vindo dele, dado o envolvimento emocional que os dois têm... o dom não funciona com ele.

   “Se calhar exagerei na reacção...”

   Tinham de clarificar a situação, ela tinha de saber o que se estava a passar com ele.

   Dali seguiu para casa e, depois de dizer aos pais que estava muito cansada deitou-se na cama com o candeeiro de cabeceira aceso. Ainda tentou ler para se distrair mas não conseguiu. Virou-se para a janela e, na transparência alaranjada do cortinado, lembrou-se do fim-de-semana em Marvão, o primeiro que passaram juntos desde que se conheceram.

   A paixão a arder-lhes no peito. Os corpos sempre colados, o contacto físico constante, as mãos a brincar umas com as outras. À noite, labaredas de prazer.

   — Posso?

   Desceu dos pensamentos e viu outra vez o cortinado alaranjado. E depois percorreu a penumbra do quarto até ver a sua mãe a espreitar, à entrada. Só lhe via a cabeça, estando o resto do corpo escondido pela porta.

   — Claro, mãe, entra.

   — Não queres comer nada? — A voz calma, a habitual tábua de salvação.

   — Agora não, mãe, lanchei um copo de leite e queria terminar a digestão. Quando é que jantam?

   — Olha filha, o jantar está feito. Jantamos quando vocês quiserem. — Conceição olhava para a filha como sempre olhou quando sentia que ela não estava feliz, com uma inquietação desmedida e com uma vontade incontrolável de esmiuçar a aflição que sabia que a sua cria estava a sentir, por forma a tranquilizar-se e poder fazer alguma coisa, quanto mais não fosse acalmá-la.

   Tem a convicção de que, a partir do momento em que deitamos filhos ao mundo, nunca mais há sossego; mesmo antes, quando os filhos ainda estão no ventre, já tudo mudou.

   O instinto maternal fica, desde essa altura, irreversívelmente aceso. Sempre que há alguma preocupação com os filhos, esta ideia surge-lhe mais clara do que nunca.

  — Madalena — disse, fazendo uma pequena pausa antes de mergulhar no assunto, e sentindo, com uma inexplicável certeza, que a filha sabia o que a mãe lhe ia perguntar —, passa-se alguma coisa? — Nova pausa, com um olhar tão acolhedor e tão difícil de resistir.

   Sentou-se à beira da cama e fez uma festa na cara da filha. — Eu sei que não estás bem, que há algum problema, porque tu não me pareces feliz, filha.

   Mais uma pausa, desta vez muito breve, para logo depois começar no assunto a fundo. — Eu sinto que tu e o Vítor não andam bem, e isso tem-se reflectido no teu comportamento. Andas infeliz, tens comido pouco e estás mais irritadiça. O que é que se passa?

   — Sei lá o que é que se passa. — Conseguiu suster as lágrimas e continuar. — As coisas estão diferentes, mãe. Não sei... parece que ele está mais distante, está a assumir uma postura que não é normal. Ainda nem casámos... Não é que depois do casamento seja aceitável, mas se uma pessoa já tem um comportamento destes antes de se casar, meu Deus, então como será depois! — O seu nervosismo fazia com que falasse a correr. — Eu pergunto para quê? Nada disto está a fazer sentido... eu já pensei tanto disparate, perguntei-me se ele tem alguém, já dei voltas à cabeça a tentar saber o que é que se passa e não consigo descortinar nada. Porque é que ele está diferente?

   — Ó filha, calma. Diz-me uma coisa, já falaste com ele, já lhe perguntaste o que é que se passa?

   — Não mãe, directamente não. Discuti com ele há bocado... — Os olhos transluziam. — Disse-lhe que estava farta.

   Começou a fazer uma prega na colcha, com as mãos a tremer. — Ó mãe, já não é a mesma coisa, já não olha para mim da mesma maneira, não sinto a paixão que eu sei que ele sentia no princípio, mãe!

  — Mas Madalena, eu acho que devias falar com ele. Como é que podes ter desconfianças, ainda para mais tão sérias quanto essas, sem falar com ele, sem ouvir o que ele tem para dizer. Falem com calma, abram o coração.

   “Não é normal que duas pessoas que namoram não falem abertamente dos problemas duma relação que já tem anos. Quem sabe, até pode ser que ele esteja a passar por uma fase complicada.”

   Conceição viu o olhar sério e um pouco perplexo da filha e tranquilizou-se por constatar que ela se acalmava. Pegou-lhe nas mãos e sorriu, irradiando ternura.

   Estiveram assim por um breve momento, suficiente para que Madalena relembrasse a segurança que a mãe lhe transmitira ao longo da sua infância e adolescência, sempre que algo a perturbava.

   — Quando quiseres jantar diz-me. — Levantou-se para sair. — Já me esquecia de te dizer que a Mafalda ligou, preocupada contigo, claro está, e disse que vem cá ainda hoje, se tiver tempo. Tens ali uma grande amiga.

   — Eu sei mãe... eu sei.

   Nessa noite Madalena teve um sono agitado. Viu o namorado a gritar-lhe, colérico e vermelho de raiva, com as veias do pescoço dilatadas e os punhos cerrados, mas não havia palavra, não havia som. Os pais discutiram numa cozinha com azulejos verde-pálido, que não era a de sua casa, e viu as pernas da mesa, colocada no centro da divisão, partirem-se devido à fragilidade da madeira provocada pela invasão de tropas de caruncho. Toda a loiça que estava em cima da mesa partiu-se e o chão de mármore ficou coberto de facas, todas elas espetadas, mas sem provocarem qualquer fractura. Como se o chão se tivesse transformado, de repente, em barro cru. A sua mãe chorava e afundava-se no barro, que se tinha transformado em lodo.

   Só se lembrou do sonho uns minutos após ter acordado, desaparecendo, para sempre, da sua memória consciente.

   Aproveitou o sábado para descansar.

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