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Lately

Histórias, opiniões, desabafos, receitas...

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Histórias, opiniões, desabafos, receitas...


Miguel Mósca Nunes

25.06.21

Capítulo IV

 

   Início de Dezembro. Passados muitos meses desde a última vez, fomos sair à noite para o Bairro Alto. Meu Deus! Este era, há muitos anos atrás, um hábito muito ridículo, o de ir todas as sextas-feiras, em procissão, para a night. Às vezes penso nos comportamentos que tive ao longo da minha juventude e a conclusão inevitável aflora sempre, amarga. Fui, na verdade, condicionada pelos preconceitos inerentes ao meu grupo de amigos. As saídas à noite foram, quase sempre, motivadas pela posição no grupo, e não pelo puro prazer de sair e me divertir. Era in sair com os amigos e contar os acontecimentos e peripécias no dia seguinte. Sinto-me sempre desconfortável com estes pensamentos. O que me consola é que não fui a única a agir assim. Acho que com a maioria dos meus amigos da altura se passou o mesmo. E com a maioria dos adolescentes de agora. Sei que esta consciência acaba por chegar, mais cedo ou mais tarde. Se não chegar, é sinal de que sempre fomos genuínos, ou de que, o que é mais certo, ainda não crescemos e, provavelmente, continuamos com a mesma forma de estar, ridícula.

   Sair à noite com os amigos era, agora, redentor, como que uma lavagem de alma. Era eu mesma, ao contrário do que acontecia há dez anos atrás. Que tranquilidade. Não queria provar nada a ninguém. E o grupo de amigos tinha sido expurgado. Nem metade lá estava.

    Estava a ser uma noite mágica. Fomos jantar a um típico restaurante atascado, e aproveitámos todos os bocadinhos do tempo, que passava depressa. Saboreava toda a comida que estava a passar pelo prato, e sorvia toda a verborreia dos meus convivas. Estava a adorar os risos, a galhofa, os comentários, as ideias trocadas, a estupefacção em relação ao relato de tanta atribulação dos últimos tempos, a íntima e comum satisfação por ainda sermos um grupo de amigos.

   Todos estávamos mudados. Mas tínhamos a mesma essência.

   Madalena estava radiante, liberta, pela primeira vez, do pesadelo pelo qual tinha passado.

   — Já viste o borracho em que se tornou o Filipe, desde que cortou o cabelo? — perguntou ela, entusiasmadíssima.

   — Já, já. E também já reparei que pareces estopa, minha querida!

   Riu à gargalhada e retorquiu: — Ó meu amor, a vida é assim, vão uns e vêm outros. — Mais gargalhadas, com o vigor dos vinte anos que já não tinha. Chegou-se para mim, olhando-me de modo intenso, e sussurrou: — Estou feliz minha querida. Obrigado por estares sempre lá... — Não conseguiu dizer mais nada, porque a emoção brotou. Chorámos.

   — Olha, olha, estas duas estão bonitas, estão! — disse o João, ele também já um pouco entornado.

   Este João era extraordinário. Estava-se a borrifar para a opinião dos outros, e reagia militantemente a qualquer manifestação homofóbica. Tinha a vantagem de ser enorme e musculado, o que fazia com que, normalmente, qualquer pensamento agressivo não passasse à acção. Normalmente…

   Houve um episódio memorável no Hard Rock Cafe, sobretudo porque eu nunca tinha assistido ao bullying de um homem a outro homem, e também nunca tinha visto o João a reagir. Ao reparar na carinhosa festa que o meu amigo fez na cara do rapaz que estava a servir-nos os cafés, de quem já tinha sido namorado, um homem arruivado e encasacado, com um cachecol enrolado ao pescoço, sentado na mesa ao lado, disse, para quem o quisesse ouvir: “Olha agora, temos aqui gays”. “Se está incomodado com a minha presença, tem bom remédio”, retorquiu o João, sereno. Esta resposta fez ruborizar o estúpido, que se levantou e deu um empurrão ao meu amigo. Claro que o passo seguinte foi um knockout de um só murro. O néscio ficou estendido no chão. O segurança também era amigo do João e deixou-nos sair, perante o alarido que os amigos do fulano estavam a fazer: "Chamem a polícia!", gritavam.

   Nesta noite de copos estava muito bem-disposto. Era bonito. Às vezes eu olhava para ele e desejava-o. E acho que ele sentia o mesmo. Mas nunca falamos sobre isso. A sensação que eu sempre tive era a de que ele também me desejava. Havia qualquer coisa na nossa troca de olhares que me dizia isso mesmo.— E como é que é, minha linda? Porque é que o teu mais-que-tudo não veio connosco? — perguntou ele à Madalena, já no final do jantar.

— Porque ele já não é o meu mais-que-tudo.

— Ham?! Acabaram?!

— Pois, já não namoramos.

— É pá, mas estiveram juntos tanto tempo…

— É assim a vida, o parvalhão já não gostava de mim. Foi o melhor para os dois.

— Sim, rapariga. E tu és linda de morrer e tens de te dar valor.

— És tão querido João, adoro-te!

— Mas é verdade! — disse. Fez uma curta pausa, para logo a seguir atirar: — Eu adoro-te como amigo, porque senão…

— Não sejas parvo! Alguma vez?! — disse a Madalena, fazendo com que o João arregalasse os olhos.

— Então? Era assim tão difícil para ti?

— Claro! Achas?! Adoro-te e não iria nunca estragar o que temos. E estavas a dizer isso mesmo, estavas a falar na nossa amizade…

— Pois, mas seria assim tão difícil?! — insistiu.

— Não sejas criança — disse a Madalena a rir à gargalhada. — Estás a sentir o teu ego enfraquecido, é?

   O João estava já a acenar para o homem que tinha avistado ao longe, para fazer com que ele se dirigisse para a mesa onde estávamos sentados. Uns instantes depois João apresentou-o: — Malta, este é o Ricardo. Ricardo, estes são os amigos de que te falei, portanto, apresentem-se e estejam à vontade.

   Ricardo era parecido com o João só no tamanho. Era loiro e tinha olhos verdes. O João era moreno e tinha olhos castanhos. Mesmo no Inverno, parecia acabado de vir da praia, sempre que nos encontrávamos com ele.

   Quando o Ricardo se sentou ao lado do João, cumprimentaram-se com um beijo na boca sem qualquer constrangimento.

   Este grupo de agora é, de facto, especial. Cada um faz a sua vida como bem entende e não se preocupa com a opinião dos outros. Não é muito comum haver este tipo de relacionamento entre amigos. Eu conheço pessoas que não funcionam assim no seu núcleo de amizades mais próximas. Mas nós fazemos mesmo um esforço para sermos transparentes uns com os outros.

— Portanto, não tenho hipótese… — segredou o João ao ouvido de Madalena. — Que pena…

— És mesmo um parvalhão — respondeu ela. — O rapaz aqui ao teu lado, e tu a dizeres-me estas coisas…

— Ele sabe como eu sou, e como tu és mulher, não tem mal…

— Olha que porco! — retorquiu. — Pois é meu querido, mas somos amigos e eu não vou, não vou mesmo, misturar as coisas! — respondeu com uma assertividade que não deixava qualquer margem para dúvidas. E ele sabia-o.

— Sabes que no outro dia encontrei um amigo que talvez gostasses de conhecer. É giro que se farta.

— Ai não! Não vão começar aquela fase de quererem arranjar-me namorado, pois não? — disse irritada. — Deixem-me sossegada!

— Calma rapariga, só me lembrei do rapaz. Chama-se André e é uma pessoa linda, por dentro e por fora.

— Está bem, deixa ser, deixa-o estar porra…

Entretanto, mergulhámos na noite, a percorrer vários bares. E antes do Natal não nos reunimos mais.


Miguel Mósca Nunes

17.06.21

Capítulo III

 

 

   Num Domingo de Outubro encontrámo-nos na Avenida de Roma. Andámos por ali, sem rumo definido, só com o objectivo de desabafar uma com a outra.

   Falámos sobre o que nos ia na alma, ao mesmo tempo que fizemos comentários sobre os homens que passavam e sobre as montras de roupa. É curioso que, quando as mulheres que eu conheço falam dos homens, não o fazem da mesma forma que os homens quando estes falam das mulheres. O sentimento não é o mesmo. Ou se é o mesmo, não o escondem dos amantes. Acredito que seja assim para a maior parte de nós.

   Entre as duas, as apreciações não penetram no campo da nojeira dos comentários que os homens tecem. A maioria deles, mais ou menos discretos, são ordinários.

   Meu Deus, como são estúpidos. Basta passar por um grupo de homens que vão almoçar no intervalo do trabalho e escutar o que dizem para verificar que, mais uma vez, falam de mulheres. Muitas vezes atiram-nos ignomínias. E esta é uma faceta estanque, que não transparece na vida do santíssimo lar, para a respectiva mulher.

   Claro que este lado tão promíscuo e imundo não poderia ser transposto para as conversas ao serão e ao fim-de-semana, com a mulher e os filhos. Tem de ficar bem escondido, de segunda a sexta-feira, das nove às dezoito.

   Parece que esta gente anda a viver duas realidades distintas sendo que, no trabalho, com os colegas, ou no tempo livre, com os amigos, são pessoas expansivas, libertas e arejadas, tão arejadas ao ponto de a família ser arrastada para fora da memória pela ventania anestésica do vastíssimo campo visual.

   E, em casa, no conforto dos chinelos e do roupão, são recatados e uns fieis mentirosos. Haverá excepções?

   Parece que as mulheres estão a adquirir algumas características masculinas, das mais ridículas, mas tenhamos a esperança que seja uma percentagem muito reduzida. Não vamos, de oprimidas, passar para a estroinice e para a intrujice, sob a capa da emancipação.

   Esse seria um destino bastante redutor, o de passar de uma existência inteligente, cheia de sensibilidade, argúcia e paixão, para um lamaçal de mentira. Podemos experimentar vários homens ou mulheres, sem caminhar na falsidade.

   Bem sei que fomos escravizadas pelos homens e pelos seus malvados bons costumes, que só serviam para nós, mas a emancipação não significa perda de faculdades mentais!

   — Os homens são todos iguais — disse Madalena, com a habitual certeza que acompanha esta afirmação.

   —  Pois... sei lá, será que há excepções? Sabes, é muito fácil meter tudo em gavetinhas e catalogar as pessoas sempre da mesma maneira.

   — Ó Mafalda, tu não vês o Vitor! Está cada vez mais próximo do típico modelo masculino. — A sua expressão já estava a assumir a raiva que lhe mastigava as entranhas.

   — Tudo bem, pode ser que sim, mas ainda não falaste a sério com ele, não lhe disseste que estás insegura. Não lhe perguntaste o que é que ele anda a fazer.

   — Tenho medo.

   Fervilhava no meu espírito a inquietação de Madalena. Eu sentia que o Vitor fazia parte do mesmo rol de homens e que não seria a excepção.

   Depois de chegarmos à conclusão de que estávamos fartas do assunto, resolvemos divertir-nos e começar a fazer planos para o próximo fim-de-semana. Decidimos fazer uma viagem juntas para Portalegre, onde já tínhamos ido há bastante tempo. Seria bom passar pelos locais que tanto recordámos e comer aquelas migas deliciosas.

   Madalena tomou a decisão de não deixar passar mais tempo. Teria uma conversa séria com Vítor.

   Na segunda-feira seguinte, depois do trabalho, perto das sete horas da noite, foi ter a casa do namorado. Mal abriu a porta este fez logo uma expressão aparvalhada, esboçando um sorriso como que a pedir desculpa. Ele já tinha tentado falar com ela várias vezes, desde o último arrufo. Ligava para o telemóvel, ela não atendia. Falava com a D. Conceição pedindo para a filha lhe ligar. Este comportamento baralhava-a.

   Beijaram-se e ele avançou colocando os braços à volta da cintura de Madalena, apertando-a contra si. Estava a pedir sexo com uma capa de romantismo. Este era mais um dos tais pedidos de desculpas. Ela permaneceu calada por alguns segundos, olhando-o nos olhos e afastou-se, caminhando de seguida para a sala. Antes de se sentar, disse-lhe que tinham de conversar. Ele olhou-a, sério. Madalena apoderou-se do comando da televisão e desligou o estafermo do aparelho, sentando-se primeiro do que ele. Vitor sentou-se à beira do sofá com os dedos das mãos entrelaçados.

   Decidiu falar: — Eu sinto... desde há algum tempo a esta parte, que estás diferente.

   Vítor olhou-a com um ar surpreendido: — Diferente como?

   — Estás diferente. Ages comigo de forma diferente, estás frio. O teu comportamento mudou.

   — Eu não estou a perceber... o que é que se passa?

   — Nada. Só estás a anos-luz daquilo que eras para mim! Já não te interessa muito estar comigo, pois não? — Já que tinha começado, seria para doer.

   — Ó pá...é assim, eu não estou a perceber Madalena, tens andado esquisita e agora vens com essas coisas...

   — Claro, eu é que estou esquisita! Mas não sou eu que não quero namorar e sair para jantar fora e não sou eu que demonstro já não amar!

   — Ah, e eu demonstro isso? — perguntou, perplexo e encurralado.

   — Já não me amas pois não?

   — Mas porquê esta conversa — perguntou, aflito. — Explica-me!

   — Porque tu já não me amas! Tens outra?

   — O quê?!

   — Tens outra?

   — Não digas disparates! — ele levantou-se.

   — Responde! — ela levantou-se.

   — Não! Não tenho!

   — Não me estás a mentir?

   — Não tenho ninguém porra! — gritou.

   — Então porque é que não me ligas?

   — Mas eu ligo-te Madalena, eu ligo-te! — Vitor estava vermelho de cólera. E gritava.

   — Não me venhas com histórias! — Ela despejava as palavras, inclinada para a frente e com os punhos cerrados.

   — Mas que histórias Madalena, estás a ser estúpida! — Já se lhe notavam as veias do pescoço dilatadas. — Vamos falar com calma, por favor?

   — Não vale a pena, sabes. Porque eu acho que esta relação está nas últimas. — E decidiu arriscar. — Eu vi as tuas mensagens no telemóvel.

   Para surpresa dela, ele ficou em silêncio por uns instantes.

   — O que é que disseste? — perguntou Vitor, desarmado.

   — Vi as mensagens no teu telemóvel — repetiu ela, com uma firmeza encenada. Estava a fazer de tudo para manter a postura.

   — Agora andas a vasculhar o meu telemóvel?

   Madalena não estava preparada para ouvir esta pergunta, que lhe deu a certeza de que as desconfianças tinham fundamento. E, com os olhos húmidos, continuou a mentir: — Pois é, vasculhei.

   — Mas o que é que tu viste, Madalena? — perguntou Vitor com a voz trémula. — Merda… merda! Eu não queria…

   — Eu não vasculhei nada meu estúpido! Eu não vasculhei… — começou a chorar.

   — O quê? — Vitor olhava-a, espantado — o quê?!

   — Eu desconfiava, mas no fundo não acreditava que fosses capaz! — Madalena gritava a plenos pulmões. — Estúpido! Estúpido!

   — Pára… pára!

   — Para quê a mentira, Vitor? Porque não me disseste que seria melhor acabar?

   — Madalena…

   — Cala-te! Vou-me embora! — atirou, com a raiva a sair-lhe dos poros. — Espero que não me tenhas transmitido nenhuma doença, com a merda que andaste a fazer!

   Voltou costas e deixou-o, com uma decisão que não voltaria atrás. As recordações martelavam-lhe a cabeça no caminho para casa, numa condução nublada pelo cloreto de sódio, e nessa noite não dormiu até a mãe lhe dar um comprimido e ficar com ela deitada na cama. Dormiram abraçadas e de mãos dadas.

   Dias depois Mafalda enviou uma mensagem a Vitor para combinar uma ida lá a casa, para tirar as coisas dela, de preferência quando ele lá não estivesse.

   Passadas três semanas, Madalena foi ao apartamento, não respeitando o combinado. Apesar de terem terminado o namoro desta forma zangada, ela queria falar com ele.

   E falaram sem qualquer tipo de rancor da parte dela. A conversa foi serena, sem acusações e Madalena sentiu que foi o encerramento de um capítulo da sua vida, e foi menos doloroso do que ela pensava.

   Depois foi para Carcavelos e terminou a tarde a olhar o mar, sentada na esplanada a beber um gin tónico.

   Quanto ao Vitor, contactou-a pelo telemóvel mais duas vezes depois deste último encontro, a implorar que ela reconsiderasse, que voltasse para ele, porque ele já não tinha nada com a outra, que tinha sido um disparate muito grande e que não voltaria a ser estúpido e a cometer aquele erro.

   Madalena ouvira estas palavras com uma sensação estranhíssima, de não conhecer o homem com quem tinha namorado tanto tempo. Não parecia a mesma pessoa a falar. Era um discurso tão vulgar, daqueles que sempre ouviu nas novelas ou leu nos livros, e que não vira naquele que tinha sido o seu amor.


Miguel Mósca Nunes

07.06.21

Capítulo II

 

 

   Conheci Madalena numa fase complicada da sua vida, tinha ela 19 anos. Nessa altura já estava a ser atormentada por um mar de dúvidas em relação aos estudos e ao futuro profissional. Apesar de tudo, detectei nela um fulgor persistente, característica daquelas pessoas que, a cada dissabor, a cada contrariedade, se levantam com uma renovada energia.

   Gostei logo dela. Senti uma confortável empatia logo que trocámos as primeiras palavras. Creio que foi uma sensação mútua e mantivemos, desde aí, uma profunda amizade.

   É um relacionamento transparente, que se traduz numa absoluta sinceridade. Partilhamos até as mais duras opiniões sobre a outra, e não guardamos nenhuma crítica, por mais azeda e cortante que seja. Achamos que só assim é que se consegue manter um fiel e duradouro vínculo de afecto. Um vínculo tão puro que nos torna quase irmãs, faltando apenas a ligação de sangue. Há irmãs que não são tão próximas quanto nós. Parece sermos fruto de uma gravidez gemelar.

   Seria uma vã tentativa a de esconder o nosso íntimo uma da outra porque temos em comum a tal capacidade apurada de percepção. Adivinhamos os nossos pensamentos e os de algumas pessoas. Pena é que não consigamos canalizar este dom para quem queremos, e quando queremos. Vamos vivendo assim, confrontadas com o que a vida nos oferece, como que resignadas com esta sina que, na maioria das vezes, é violenta.

   Ninguém consegue imaginar o que é isto de saber o que os outros estão a sentir num dado momento. O ódio, o desespero, a mesquinhez, o mal querer. Dá vontade de desaparecer, para o mais longe possível. E o mal-estar não passa logo. Temos de esperar. E, depois, a torturante memória não nos deixa em paz.

   No fim de Setembro de 2001, após um Verão atípico, marcado por noites frias, Madalena foi ter a casa de Vítor, depois do trabalho, estimulada pela ideia de jantar fora, ainda para mais numa sexta-feira, num restaurante com um ambiente romântico, pensando que seria um bom fogo para a relação que há muito estava morna.

   Podia ser o princípio de uma excelente noite.

   Quando ele abriu a porta estava em cuecas, vestia apenas uma camisola de manga curta e calçava uns chinelos que já não eram beijes.

   — Olá amor — disse ele. — Entra. Vai dar futebol — atirou, começando um corte preventivo das hipóteses de ela dar conta do seu sossego.

   Tinha chegado a casa há cerca de meia hora e já tinha emborcado uma cerveja, dois sumos de pêra e comido, sôfrego, dois pães de Mafra com manteiga, queijo e fiambre. “Estás a ficar obeso”, pensou ela, a olhar para a lipídica protuberância que se estava a formar no ventre.

   — Sabes uma coisa? —  disse entusiasmada. — Vamos jantar fora.

   — Quando, gorda? Hoje? — O namorado estava a ver a sua noite de repouso ir por água abaixo.

   — Claro! — Já adivinhava o que ele queria mas continuou. — Vamos a um restaurante indiano muito agradável, já lá jantei com os meus pais e é fabuloso, tem um ambiente espectacular.

   — Ó Madalena, porra, eu quero ficar sossegado! — chinfrinou de repente, colocando a mão sobre o comando da televisão pousado no braço do sofá. — Estou cansado, quero ver se não me chateio muito hoje. Vai dar o jogo daqui a um quarto de hora.

   Madalena não suportou esta reacção e disse: — Muito bem, com que então queres ver se não te chateias... Está bem!

   — Pronto, agora ficas zangada...

   — Não, deixa estar, eu entretenho-me sozinha.

   — Ó Madalena...

   — Ó Vítor, deixa estar, ‘tá bem! — Estava a ferver. Mais uma vez ele não queria sair com ela. “Isto está a ficar lindo”, pensou. “ Prefere ver televisão a sair comigo... se é assim agora, como será depois do casamento?”.

   Conheceram-se na universidade cinco anos antes. Eram de turmas diferentes mas viam-se na biblioteca e no refeitório, também bastantes vezes nos corredores, e começaram a cumprimentar-se, no meio da algazarra de vozes e ruídos, dos talheres a cair, dos pratos carregados de péssima comida e da sinfonia de panelas e tachos.

   A atracção despertou. Poucos meses passaram até o namoro começar, com o habitual beijo lento, táctil e experimental, sempre húmido e trémulo. Tanto aparato...

   — Olha Vítor, eu vou para casa — disse.

   — Ó pá, vamos jantar, pronto. — O prato frio.

   — Por amor de Deus, não faças o favor!

   — Então o que é que queres, Madalena... — disse, num tom teatral e suplicante.

   — Vou para casa, deixa-te estar sossegado, na tua casinha, que eu vou à minha vida! — cuspiu a gritar. Olhou-o e disse: — Estou farta e quero acabar com esta merda de coisa que temos um com o outro. — Pegou, num movimento ágil e rápido, no casaco que tinha colocado no sofá, levando colado um engordurado guardanapo de papel, e saiu porta fora.

   Ele ficou a olhá-la, sem expressão.

   Pela primeira vez tinha deixado transparecer para Vítor que sabia que ele já não era o mesmo e que não estava satisfeita. Cinco anos... Porque é que as pessoas mudam? Porque é que os homens mudam? A entrega, a partilha, a cedência, para quê?

   É tudo tão lindo no princípio, a construção da teia, o ardil a ser cozinhado. Tudo tão preenchido de tolerância, a luz dos teus olhos tão intensa.

   Na rua, a passar por entre os carros estacionados, a cruzar-se com caras sérias de gente fechada, a calçada suja, os manequins sem cabeça das lojas de roupa, os cheiros de sempre, não quis saber de mais nada.

   Sentia-se cansada. O incómodo da consciência de que o seu namoro não estava bem existia há algum tempo e isso estava a tornar-se mais evidente. Mas não tinha certezas... não conseguia sentir nada vindo dele, dado o envolvimento emocional que os dois têm... o dom não funciona com ele.

   “Se calhar exagerei na reacção...”

   Tinham de clarificar a situação, ela tinha de saber o que se estava a passar com ele.

   Dali seguiu para casa e, depois de dizer aos pais que estava muito cansada deitou-se na cama com o candeeiro de cabeceira aceso. Ainda tentou ler para se distrair mas não conseguiu. Virou-se para a janela e, na transparência alaranjada do cortinado, lembrou-se do fim-de-semana em Marvão, o primeiro que passaram juntos desde que se conheceram.

   A paixão a arder-lhes no peito. Os corpos sempre colados, o contacto físico constante, as mãos a brincar umas com as outras. À noite, labaredas de prazer.

   — Posso?

   Desceu dos pensamentos e viu outra vez o cortinado alaranjado. E depois percorreu a penumbra do quarto até ver a sua mãe a espreitar, à entrada. Só lhe via a cabeça, estando o resto do corpo escondido pela porta.

   — Claro, mãe, entra.

   — Não queres comer nada? — A voz calma, a habitual tábua de salvação.

   — Agora não, mãe, lanchei um copo de leite e queria terminar a digestão. Quando é que jantam?

   — Olha filha, o jantar está feito. Jantamos quando vocês quiserem. — Conceição olhava para a filha como sempre olhou quando sentia que ela não estava feliz, com uma inquietação desmedida e com uma vontade incontrolável de esmiuçar a aflição que sabia que a sua cria estava a sentir, por forma a tranquilizar-se e poder fazer alguma coisa, quanto mais não fosse acalmá-la.

   Tem a convicção de que, a partir do momento em que deitamos filhos ao mundo, nunca mais há sossego; mesmo antes, quando os filhos ainda estão no ventre, já tudo mudou.

   O instinto maternal fica, desde essa altura, irreversívelmente aceso. Sempre que há alguma preocupação com os filhos, esta ideia surge-lhe mais clara do que nunca.

  — Madalena — disse, fazendo uma pequena pausa antes de mergulhar no assunto, e sentindo, com uma inexplicável certeza, que a filha sabia o que a mãe lhe ia perguntar —, passa-se alguma coisa? — Nova pausa, com um olhar tão acolhedor e tão difícil de resistir.

   Sentou-se à beira da cama e fez uma festa na cara da filha. — Eu sei que não estás bem, que há algum problema, porque tu não me pareces feliz, filha.

   Mais uma pausa, desta vez muito breve, para logo depois começar no assunto a fundo. — Eu sinto que tu e o Vítor não andam bem, e isso tem-se reflectido no teu comportamento. Andas infeliz, tens comido pouco e estás mais irritadiça. O que é que se passa?

   — Sei lá o que é que se passa. — Conseguiu suster as lágrimas e continuar. — As coisas estão diferentes, mãe. Não sei... parece que ele está mais distante, está a assumir uma postura que não é normal. Ainda nem casámos... Não é que depois do casamento seja aceitável, mas se uma pessoa já tem um comportamento destes antes de se casar, meu Deus, então como será depois! — O seu nervosismo fazia com que falasse a correr. — Eu pergunto para quê? Nada disto está a fazer sentido... eu já pensei tanto disparate, perguntei-me se ele tem alguém, já dei voltas à cabeça a tentar saber o que é que se passa e não consigo descortinar nada. Porque é que ele está diferente?

   — Ó filha, calma. Diz-me uma coisa, já falaste com ele, já lhe perguntaste o que é que se passa?

   — Não mãe, directamente não. Discuti com ele há bocado... — Os olhos transluziam. — Disse-lhe que estava farta.

   Começou a fazer uma prega na colcha, com as mãos a tremer. — Ó mãe, já não é a mesma coisa, já não olha para mim da mesma maneira, não sinto a paixão que eu sei que ele sentia no princípio, mãe!

  — Mas Madalena, eu acho que devias falar com ele. Como é que podes ter desconfianças, ainda para mais tão sérias quanto essas, sem falar com ele, sem ouvir o que ele tem para dizer. Falem com calma, abram o coração.

   “Não é normal que duas pessoas que namoram não falem abertamente dos problemas duma relação que já tem anos. Quem sabe, até pode ser que ele esteja a passar por uma fase complicada.”

   Conceição viu o olhar sério e um pouco perplexo da filha e tranquilizou-se por constatar que ela se acalmava. Pegou-lhe nas mãos e sorriu, irradiando ternura.

   Estiveram assim por um breve momento, suficiente para que Madalena relembrasse a segurança que a mãe lhe transmitira ao longo da sua infância e adolescência, sempre que algo a perturbava.

   — Quando quiseres jantar diz-me. — Levantou-se para sair. — Já me esquecia de te dizer que a Mafalda ligou, preocupada contigo, claro está, e disse que vem cá ainda hoje, se tiver tempo. Tens ali uma grande amiga.

   — Eu sei mãe... eu sei.

   Nessa noite Madalena teve um sono agitado. Viu o namorado a gritar-lhe, colérico e vermelho de raiva, com as veias do pescoço dilatadas e os punhos cerrados, mas não havia palavra, não havia som. Os pais discutiram numa cozinha com azulejos verde-pálido, que não era a de sua casa, e viu as pernas da mesa, colocada no centro da divisão, partirem-se devido à fragilidade da madeira provocada pela invasão de tropas de caruncho. Toda a loiça que estava em cima da mesa partiu-se e o chão de mármore ficou coberto de facas, todas elas espetadas, mas sem provocarem qualquer fractura. Como se o chão se tivesse transformado, de repente, em barro cru. A sua mãe chorava e afundava-se no barro, que se tinha transformado em lodo.

   Só se lembrou do sonho uns minutos após ter acordado, desaparecendo, para sempre, da sua memória consciente.

   Aproveitou o sábado para descansar.


Miguel Mósca Nunes

01.06.21

 

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29 de setembro. Sentado nos degraus exteriores, à entrada do edifício onde vive, bem perto dos Bombeiros Voluntários da Malveira, João espera que o seu vizinho suba as escadas até ao patamar de acesso aos elevadores.

 É um rapaz vivaço e aventureiro, de onze anos, alto para a sua idade e cheio de energia. Moreno e de olhos castanhos como avelãs, esguio e ágil. Tem um pequeno sinal na ponta do queixo, que lhe dá um ar engraçado. Adora andar pela vila de bicicleta, e costuma fazer recados à mãe dessa forma, porque chega mais depressa a todo o lado.

 Espera que o Sr. Camilo, um dos seus vizinhos, um homem robusto e afável, entre para o átrio e se enfie na cabine do elevador. Espreita com alguma dificuldade pelos vidros cheios de reflexos e confirma que o homem desaparece. Galga os degraus, entra no edifício, e começa a sua tarefa. Está num entusiasmo tão grande, que quase rebenta de alegria.

 Tira a tampa da embalagem de manteiga que trouxe de casa e, com a ajuda da faca de sobremesa da sua mãe, começa a besuntar a pega das portas dos elevadores, de maneira a que não se veja. Repete a proeza em todos os andares. E faz o mesmo nas maçanetas das portas de todos os apartamentos. Depois disto, vai a correr para a escola, porque não quer chegar atrasado à aula de Português.

 Ri o caminho todo, ao imaginar o resultado do que acabou de fazer.

 No intervalo grande, e depois de correr para trás do pavilhão D com Ricardo, o seu melhor amigo, João retirou da mochila um frasco com uma mistela que tinha preparado no dia anterior, na qual misturou mostarda, um tempero de alho que encontrou no frigorífico, pó de caril que retirou do cesto de especiarias que está há anos na despensa, e vinagre, para diluir. Aquela coisa ficou pastosa. E cheirosa! Parecia estar a viajar para a Índia.

 Ricardo, loiro e de olhos azuis como o mar, é, de facto, o melhor amigo de João. E é um rapaz especial, com uma sensibilidade fora do comum. Conhecem-se desde o infantário, e sempre tentou proteger João, compadecendo-se com o amigo, quando este se encontrava em apuros. São como irmãos.

 Os dois riram à gargalhada quando decidiram colocar aquela mixórdia na cadeira da professora Amélia.

 ― Temos de besuntar muito bem, para ela não notar. Isto tem a cor da madeira e tudo! ― disse João, aos saltinhos, desequilibrando-se e quase tropeçando no passeio. ― Vamos para a sala agora, antes que a stôra chegue!

 ― Bora lá! ― respondeu o companheiro de quase todas as partidas.

 Entraram na sala, trepando pela janela, dirigiram-se para a secretária ao pé do quadro de ardósia, e fizeram o trabalho, pondo uma camada generosa daquela mistela, com uma perícia pouco comum para duas crianças de onze anos. Ficou liso como se fosse o próprio assento. Saíram da sala, pela mesma janela, quando faltavam cinco minutos para o início da aula.

 Tocou a campainha, entraram os alunos, chegou a professora de ciências. Esguia, pálida e vestida com um saia-casaco de xadrez. Prestes a fazer quarenta e cinco anos, parecia ter mais dez.

 Pairava no ar um cheiro familiar. A mulher lembrou-se daquela vez em que almoçou com o marido num restaurante indiano, em Lisboa, e em que comeu, até fartar, todas aquelas magníficas iguarias.

 ― Bom dia a todos ― disse a professora, de pé, encostada à secretária. ― Hoje vamos falar sobre o sistema respiratório, e depois vamos fazer uma ficha sobre esta matéria.

 Durante quase todo o tempo de aula, a mulher andou de um lado para o outro, à medida que ia falando. João e Ricardo, na mesma carteira, estavam num frenesim, com um nervoso miudinho, sempre à espera de vê-la sentar-se no raio da cadeira.

― E se aquilo seca?! ― disse Ricardo, preocupado por estar a demorar tanto tempo. ― Olha lá o sol a dar bué naquela porcaria…

 ― Não seca nada! ― respondeu João, com a certeza de quem fez um belo trabalho.

 A quinze minutos do fim, a professora distribuiu as fichas.

― Agora, façam silêncio para que possam responder a todas as questões ― disse. ― Com calma, que ainda temos tempo.

 Dirigiu-se para a cadeira e, num movimento que os dois amigos acharam demorado, de tão ansiosos que estavam, a mulher sentou-se. Um minuto. Passou um minuto até que pudessem ver as faces brancas da desgraçada a encarniçar, o olhar a ficar brilhante, as mãos a tremerem.

 Permaneceu sentada, imóvel como uma estátua, até deixar todos os alunos saírem da sala.

― Coloquem aqui os vossos enunciados… digo-vos os resultados na próxima aula… ― balbuciou.

 E fez assim porque sabia que havia alguma coisa que não estava nada bem, mas não percebeu logo o que lhe tinha acontecido. Chegou a pensar que tinha sido um descuido seu e, por isso, esperou que todos saíssem para poder estar à vontade.

 Quando se levantou e colocou a mão na saia, e cheirou os dedos ossudos, os dois reguilas já espreitavam pela janela, do lado de fora, contendo o riso para não serem descobertos. Viram-na sair, esbaforida e de mãos bem abertas, por as ter sujas. Depois correram o mais depressa que conseguiram, rindo à gargalhada, até às traseiras do pavilhão onde haviam planeado a patifaria.

 Estavam sentados num banco de pedra, voltados para uma parede de cimento, mais contentes do que nunca, quando viram uma sombra com uma forma nunca antes vista por aqueles quatro olhinhos traquinas. Havia alguma coisa atrás deles, que fez com que ficassem quietos e sem pinga de sangue. Não se atreveram a virar-se, tal era o medo.

 Passados alguns segundos, a sombra subiu e desapareceu, com um ruído que aqueles quatro ouvidos nunca tinham ouvido. Olharam um para o outro, assustadíssimos. Não conseguiam falar. João tentava perceber o que tinha acabado de acontecer. Ricardo levou as mãos à cara. Aquela sombra…

 Lá se voltaram, os dois ao mesmo tempo e… nada. Brilhava o sol, naquele pátio onde estavam sentados, e estava frio. Demasiado frio para o final de setembro. Ao longe, os gritinhos e a galhofa das crianças no recreio. Passados cinco minutos, estavam na aula de História.

 Nesse dia à noite, e depois de uma tarde muito estranha em que os dois amigos estiveram todo o santo tempo muito sossegados e apáticos, coisa nada habitual, aquela experiência aterradora não saía da cabeça do João.

 Nem sequer se divertiu com os comentários dos seus pais sobre a aventura que tinha sido o regresso a casa e sobre a maçaneta da porta de entrada. A vizinha de cima tinha, entretanto, tocado à porta, para perguntar se lhes tinha acontecido o mesmo. Era manteiga por todo o lado. «Mas que grande chatice!», tinha dito a senhora, com um pano amarelo na mão.

 Depois de lavar os dentes e de se enfiar nos lençóis muito quentinhos devido à botija de água quente, lá conseguiu dormir. Há muito tempo que não pedia a companhia do pai para o adormecer. E sonhou.

 E no sonho viu a sombra. E no sonho lembrou-se de que a sombra tinha a forma de um chapéu, um chapéu enorme e bicudo. E no sonho lembrou-se do que viu quando a sombra subiu.

 Na sombra descortinavam-se uns cabelos compridos e ondulantes, umas vestes a esvoaçar, e…

 Uma vassoura!

In "Merinda", Miguel Mósca, Edições Vieira da Silva, 2019

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