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Histórias, opiniões, desabafos, receitas...

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Miguel Mósca Nunes

04.12.22

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4 de Dezembro de 1980

Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro, Ebbe Merete Seidenfaden Abecassis, Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa, Maria Manuela Simões Vaz Pires Amaro da Costa, António Pinto Basto Patrício Gouveia, e os pilotos Jorge Manuel Moutinho de Albuquerque e Alfredo de Sousa, acabavam de descolar do aeroporto da Portela, rumo ao Porto, com a ideia de jantarem no restaurante "O Escondidinho" antes de participarem no comício de encerramento da campanha do general António Soares Carneiro, candidato da Aliança Demócrática às eleições presidenciais. Depois do jantar, seria só necessário atravessar a rua para o coliseu.

Às 20 horas e 24 minutos, o atentado estava consumado, quando o avião se despenhou contra o primeiro andar da vivenda Zeca, em Camarate.

Segundo Augusto Cid, no cessna 421-A seguia documentação altamente comprometedora para certos sectores do poder: um explosivo dossier sobre Timor, informações confidenciais sobre a situação na Polónia, um dossier sobre os implicados no assassinato do industrial Joaquim Torres, altamente lesivo para a imagem do presidente da República Ramalho Eanes, e um relatório detalhado sobre o destino dado às várias centenas de milhares de contos atribuídos ao Fundo de Defesa do Ultramar. Seria, assim, "imperioso travar Sá Carneiro e impedir, por todos os meios, que ele chegasse ao Porto, como providenciar para que toda a documentação que o acompanhava não caísse em mãos erradas. (...) Camarate visou essencialmente esses dois objectivos. (...) Os traidores com os quais Francisco Sá Carneiro havia prometido ajustar contas após as eleições presidenciais, no famoso discurso do Hotel Sheraton, terão certamente jogado aqui um papel crucial. Suspeitando que o primeiro-ministro estava já ao corrente das suas actividades e conhecia a identidade dos principais cabecilhas, a sua sobrevivência política dependia da eliminação física do lider do Partido Social Democrata antes de consumado o acto eleitoral e conhecidos os seus resultados." *

A VIII Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar ao Acidente de Camarate deu como certa a existência de atentado, através da colocação de uma bomba no aparelho, e concluiu que o Fundo de Defesa Militar do Ultramar foi alvo de uma utilização abusiva ao longo dos anos. Ficou igualmente provado que Adelino Amaro da Costa estava a investigar as operações de venda de armas que envolviam o Estado Português, em particular, a venda de armas ao Irão. 

O relatório final da X Comissão Parlamentar de Inquérito à tragédia de Camarate reafirma que a queda do avião em Camarate, na noite de 4 de dezembro, deveu-se a um atentado.

Contudo, em 2022, 42 anos depois, estamos exactamente na mesma, com uma classe política corrupta, hipócrita e vendida ao poder económico, e que continuará a fazer todos os esforços para que as suas artimanhas e esquemas de usura do erário público se mantenham.

Em 2022 estamos exactamente na mesma, sem haver consequências para este crime hediondo, e sem a nomeação dos responsáveis de um atentado que nos envergonha a todos, neste atoleiro que é Portugal.

* Camarate, Augusto Cid, 1984, Distri Editora (5.ª edição)

 

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