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Lately

Histórias, opiniões, desabafos, receitas...

Lately

Histórias, opiniões, desabafos, receitas...


Miguel Mósca Nunes

19.01.23

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O que é que uma mulher linda, arruivada e voluptuosa faz, sentada numa mesa redonda, no alpendre da minha casa, onde habitualmente bebo café e como as minhas torradas, quando não chove, mesmo que estejam temperaturas negativas?

Assim que estacionei, levantou-se e começou a caminhar na minha direcção. Quando acabei de sair do carro e fechei a porta, deixei cair as chaves no chão. Não sei porquê mas estava enervado, inquieto. Apanhei-as e quando me ergui, ela já estava à minha frente. "Sei que tem a casa à venda. Gostaria de a ver por dentro e falar um pouco das características, e sobre valores", disse.

"Muito bem", respondi, atrapalhado e sem conseguir disfarçar o encantamento, sobretudo porque o perfume que cheirei era maravilhoso. Estava a reparar nos olhos verdes e expressivos, quando ela disparou: "Espero que não estejamos a falar de um preço que eu não possa comportar. Seria lamentável que eu não ficasse com esta casa. Pelo exterior, já a posso considerar minha."

Não sabia muito bem o que responder, mas não precisei de me adiantar, porque ela prosseguiu: "O jardim da frente é lindo e as traseiras deixaram-me sem palavras. Adoro o caramanchão e o apoio lá atrás, com o forno a lenha e o grelhador. Veja lá, porque não me quero decepcionar." O portão da frente estava aberto e ela entrara à descarada, sem se preocupar com a invasão de propriedade privada.

Fomos ver a casa, numa visita guiada que foi tudo menos normal. Não parava de reparar naqueles olhos verdes, expressivos, e na ondulação daquele cabelo arruivado. E na volúpia daquele corpo.

Às tantas, disse-lhe que o processo de venda teria de ser tratado com a imobiliária, e não directamente comigo. Ela assentiu e eu dei-lhe o contacto do agente. Fiquei de boca aberta quando me voltou as costas, fazendo voar aquele cabelo fabuloso que quase me tocou na face, para concretizar a chamada. "Boa tarde, estou aqui ao pé de um imóvel que gostaria de adquirir. Já tive a oportunidade de o visitar, guiada pelo dono, e quero mesmo fechar negócio!".

Eu continuava incrédulo, a não saber muito bem como reagir, e ela prosseguia: "Não pode é ser por esse preço que me disse! Veja se convence este senhor a baixar um bocadinho o valor." Voltou-se para mim: "Sou carangueijo! Faço tudo pela família e pelo lar." Despediu-se do homem siderado no outro lado da linha, e fez o mesmo comigo, adiantando que daria notícias muito em breve.

Passadas três semanas já sabia que tinha encontrado a mulher da minha vida, porque estávamos a jantar pela segunda vez desde que tínhamos trocado olhares pela primeira.

Nos seis meses que se seguiram, não parámos de conversar, de querer estar sempre juntos, e a venda da casa foi cancelada. Casámos, tivemos filhos e, passados vinte e cinco anos, estou a lembrar-me de como isto tudo começou, sentado na mesa redonda, no alpendre da nossa casa, a olhar para o arvoredo alaranjado dos montes em frente. A beber café e a comer torradas, com a mão dela na minha.

A mão do que de melhor me aconteceu na vida.

 

 

 


Miguel Mósca Nunes

18.01.23

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A doçaria não é para todos. Requer entrega, doses extra de paciência e muita calma. Na minha visão da coisa, é necessário saber o que estamos a fazer, e seguir as receitas nos seus ingredientes e instruções, mas, sobretudo, amar o que estamos a fazer e seguir a nossa intuição. Esse é um dos segredos, senão o principal, para que o resultado seja excepcional.

Eu gosto de bolos fofos, húmidos, que se derretam na boca, e que tenham um sabor único. E tudo isto só é possível se experimentarmos sucessivamente as receitas, até chegar ao ponto desejado, substituindo ingredientes e alterando quantidades, se for preciso.

Julia Child dizia que devemos aprender a cozinhar experimentando novas receitas, aprendendo com os nossos erros mas, acima de tudo, devemos ser destemidos e divertirmo-nos!

Uma premissa fundamental para mim é a de que devemos ser indulgentes no que diz respeito a culinária, querendo significar com isto que não nos devemos preocupar com dietas e restrições alimentares se queremos fazer pratos saborosos e especiais. Por exemplo, se a receita pede manteiga, devemos usar manteiga! Se é para usar açúcar, que se use! Sem culpas, sem medos! Quero lá saber da farinha de aveia, do óleo e do açúcar de coco! Os ovos benedict exigem molho holandês, que só é molho holandês por ter montes de manteiga! Desde que seja clarificada...

Outra coisa importantíssima: manteiga não é margarina! Se quiserem baixar significativamente a qualidade de um bolo, substituam a manteiga por margarina...

Outra fonte de problemas, e que passa despercebido porque é menosprezada, é a ausência de uma boa balança. Recomendo uma balança digital, que pesa os ingredientes com precisão. Por alguma razão uma receita pede 20 gramas de cacau ou 15 gramas de fermento e muito dificilmente se conseguem medir estas quantidades se não tivermos uma balança digital.

E, no meio destas dicas e sugestões, o que sobressai é a minha paixão pelos bolos.

 

 


Miguel Mósca Nunes

29.10.22

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Desta vez trago um livro que é muito especial para mim, sobretudo porque fui eu que o escrevi e é o primeiro que publico.

Trata-se de uma história que nasceu do Amor, porque é baseado numa fantasia que inventei para os meus filhos, quando eram pequenos.

Dois amigos, residentes na Malveira, vivem uma aventura fantástica e sobrenatural, que os leva a experiências por vezes aterradoras.

A minha ideia sempre foi a de apresentar uma narrativa despretensiosa, por vezes simples, acessível a uma camada jovem, mas que pudesse ser lida por gente mais madura. Julgo que pode ser lida por todos os que gostam de uma boa história com ingredientes referentes ao Halloween e ao Natal, embrulhada em mistério.

É também uma homenagem à Malveira, terra que me acolheu desde 2004, e, tenho quase a certeza absoluta, é a primeira história de ficção cuja acção decorre nesta vila.

Esclareço já que não sou nenhum santo, e quem pensa que tenho essa pretensão, ou que quero ascender a algum estado de beatificação, não é objecto da minha preocupação e não serve de travão para que eu expresse aquilo em que acredito. Por isso mesmo, reitero que o livro é um veículo para mensagens de empatia, igualdade de direitos, solidariedade, de abraçar a diferença, e da ideia fundamental de que a opinião dos outros não tem qualquer importância quando só serve para destruir os nossos sonhos.

Boas leituras e feliz Halloween (o mesmo será dizer, aproveitem o pouco tempo livre para amar)!


Miguel Mósca Nunes

12.10.22

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O Amor preenche-nos, não nos deixa cair, cuida de nós, e isso vê-se.

Vê-se no pão de que mais gosto para o pequeno-almoço e que tu não te esqueces de comprar, no telefonema diário, assim que chego ao trabalho, mesmo que nos tenhamos despedido há meia hora atrás, só para saber se está tudo bem. Vê-se no teu ar de aflição, se desconfias que me estou a sentir menos bem.

O que seria se não nos tivessemos encontrado, há quase quarenta anos, numa turma de gente que estava à procura de si, de se encontrar, se saber qual seria o seu papel neste mundo complicadíssimo. Gente com esperança, gente boa que se esforçava por atingir bons resultados, outros nem tanto, cheios de crenças que os faziam tomar atitudes de perfeita imbecilidade, a que hoje se chama assédio ou bullying, e que, provavelmente, mantêm a idiotice, passados estes anos todos.

E lá estávamos, nesses curiosos e difíceis, mas encantadores, anos oitenta, sem nos passar pela cabeça que um dia casaríamos e teríamos filhos. Uma professora de Geografia atirou, um dia, essa piada. E nós, a rir, ao mesmo tempo que rejeitávamos veementemente essa ideia absurda, não imaginávamos...

A inexorabilidade do tempo, que é uma coisa muito cruel, mas que não pode ser alterada, levou-nos ao presente. A este curioso e difícil, mas maravilhoso, presente.

E se esta nossa história vai ficando diluída na lufa-lufa insuportável do dia-a-dia, às vezes calha olhar para ti, e é quando te reencontro, nesses teus olhos únicos que são a minha pátria. E tudo se apazigua, porque tu és o meu Amor, para sempre.

 


Miguel Mósca Nunes

07.10.22

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“Há canções que vêm das pradarias de flores azuis e do pó de mil caminhos. Esta é uma delas”. Assim começa o romance de Robert James Waller, que deu origem a um dos mais sensíveis e arrebatadores filmes, na mais inusitada história de amor alguma vez vista no cinema. A história de um amor impossível, muito pouco convencional, principalmente por ser adúltero.

Estamos perante um filme, realizado por Clint Eastwood, que foi vendido como uma história antiga, leia-se antiquada, e talvez por isso pouco conhecido pelas gerações mais novas, mas que de tradicional tem muito pouco.

Falamos de um amor entre uma dona de casa frustrada, Francesca Johnson, e um fotógrafo profissional da National Geografic, Robert Kincaid, que se conhecem por acaso, durante uma ausência do marido e dos filhos da personagem feminina, num encontro que dura apenas quatro dias, algures em 1965, mas que teve repercussões para o resto das vidas das duas personagens. A partir daí ela passa a viver alimentada pelas recordações fechadas num baú, e ele dedica-se apenas ao trabalho, não tendo, até ao final da vida, nenhuma outra mulher.

Em 1982 a, então, viúva recebe uma carta do advogado do fotógrafo a comunicar o falecimento deste, a acompanhar uma caixa, na qual encontrou uma corrente de prata com uma medalha com o nome Francesca incrito, uma pulseira igualmente de prata (a inesquecível pulseira que fora alvo de especial atenção por parte de Francesca no primeiro encontro), as máquinas fotográficas que foram as ferramentas de trabalho de Robert, e uma carta, na qual o fotógrafo explica o vazio que foi a sua vida após aquele encontro no verão de 1965.

O advogado disse também que as cinzas de Robert foram espalhadas na ponte de Roseman, uma das pontes fotografadas para a National Geografic e na qual os amantes se conheceram no início daqueles inesquecíveis e inacreditáveis quatro dias, cumprindo o que fora estipulado em testamento. Só nessa altura Francesca percebeu a verdadeira dimensão do amor do fotógrafo.

Até à sua morte, em Janeiro de 1989, Francesca manteve o ritual de ver a caixa e o seu conteúdo no dia do seu aniversário.

O casting para o papel feminino principal foi relativamente difícil para Clint Eastwood, mesmo como realizador e actor principal do filme, que teve de argumentar, quase como um advogado numa delicada causa em pleno tribunal, perante uma muito relutante Warner Bros.

Tudo começou porque, segundo consta, uma grande amiga de Meryl Streep, a actriz Carrie Fisher, deu a Clint o número de telefone daquela. Clint sabia que estaria a contratar uma das melhores atrizes da actualidade, com uma versatilidade e uma profundidade interpretativa inigualáveis.

Apesar de a personagem feminina do livro ter 45 anos e a actriz ter essa mesma idade, a Warner considerava Meryl Streep muito velha para o papel. Para além disso, havia o receio de que a actriz não conseguisse captar o público necessário para tornar o filme um êxito de bilheteira.

O realizador não desistiu e Meryl fez uma das mais brilhantes interpretações da sua carreira, num papel pungente e cheio de sensualidade. Com o próprio Eastwood, construiu um dos pares mais verossímeis da história do cinema, cuja química transbordou todas as expectativas iniciais. Foi nomeada para o Óscar de melhor actriz. Não ganhou o Óscar, mas ganhou o Globo de Ouro. O filme rendeu na primeira semana de exibição nas salas de cinema americanas qualquer coisa como 10,5 milhões de dólares.

Consultando a wikipédia, há uma referência a uma suposta crítica da revista americana Entertainment Weekly ao livro, que penso caracterizar bem, quer o livro, quer o filme: diz que se trata de uma “curta e pungente história, comovente precisamente porque tem intensos picos de realismo” (tradução livre). De facto, estes são argumentos de peso, juntamente com o da banda sonora, composta por Lennie Niehaus, para quem ainda não viu As Pontes de Madison County.

Leia o livro ou veja o filme e chore, chore muito, com esta história de Amor.


Miguel Mósca Nunes

03.03.22

“O risco do amor é a perda, e o preço da perda é a tristeza. Mas a dor da tristeza é apenas uma sombra quando comparada com a dor de nunca arriscar o amor.”

Esta afirmação belíssima é atribuída a Hilary Stanton Zunin, citada que não conheço. E perguntam vossas excelências como cheguei a ela… através de uma personagem de uma série da Netflix, Virgin River, que diz uma frase um pouco diferente: “the price of love is loss”, na sequência de um desabafo motivado por um desgosto amoroso (perdeu o marido num acidente de viação e, ainda por cima, acha que foi a culpada).

Meus queridos, isto levou-me a pensar nestas coisas do Amor e saltaram-me logo vários pensamentos…

O risco do Amor não reside nos sacrifícios que possamos fazer, nas inúmeras cedências, nas viagens que deixamos de escolher, nas jantaradas com amigos a que deixamos de comparecer, nos silêncios que se perdem, nas voltas de bicicleta que não damos ou na falta de controlo sobre o nosso tempo.

O risco do Amor tem a ver, precisamente, com a insuportável existência que nos sobra se deixarmos de ter tanta coisa única. A bica partilhada, num ritual diário preenchido por conversa e olhares cúmplices. As mãos dadas na certeza de que é para sempre. O aperto no peito e os olhos quase a rebentar de lágrimas cada vez que paramos para pensar sobre quem temos ao nosso lado. A indubitabilidade de que, quando nos viramos e encontramos aqueles olhos, olhamos para a nossa cara-metade e para quem sabe o que nós somos e nos compreende, apesar de todas as diferenças e opiniões divergentes. Ficaria a escrever até ao Natal se continuasse.

É isto. Tenham um feliz Março!

 


Miguel Mósca Nunes

20.02.22

Pois é... já lá vai quase um ano, depois da nossa participação no All Together Now. Uma participação, numa produção apressada, de duas pessoas que se querem encontrar na arte, num país tão pequenino em termos de mercado. O que retiro desta experiência, para além dos nervos, é a satisfação de ter partilhado o palco com a minha filha. De ter dado um passo para me mostrar enquanto artista. De ter tido essa coragem! De olhar para trás e ver que poderia ter escolhido outro caminho. Mas se o tivesse feito, não teria, com toda a certeza, os filhos que tenho, nem sequer a mulher que tenho. E isso é insubstituível! Não voltaria atrás para mudar alguma coisa, porque isso implicaria não ter comigo estas preciosidades.

Como disse noutro post, Portugal continua pequenino para abraçar a arte, a diferença e o talento que brota todos os dias, que se quer mostrar numa luta frenética, cansativa e pouco compensatória.

Vi e ouvi tantos artistas maravilhosos, vi naqueles olhos a esperança de que aquela pudesse ser "a oportunidade", senti tantos nervos de quem não queria falhar, de quem queria dar o seu melhor, porque aquela poderia ser "a oportunidade".

Senti-me pequenino perante tanto talento, a cada ensaio que me passava pelos olhos só pensava: "o que é que eu estou aqui a fazer?!".

Antes de subir ao palco, estava tão enervado e inseguro que fiquei apático. Quase sem reação perande a aparição, de surpresa, da minha mulher. Só pensava que já não podiamos voltar atrás. "Espero que a Rita esteja tranquila... Espero que lhe corra bem. E se me faltar a voz? E se me enganar na letra? E se desafinar?".

Entrei no palco, e às primeiras palavras cantadas, desapareceu tudo, excepto a preocupação com a Rita e o orgulho de estar ali com ela, a sentir o privilégio de dividir palco com um dos seres mais incríveis que conheço.


Miguel Mósca Nunes

26.11.21

Há muito o hábito de tratarmos os nossos cães como se fossem pessoas. Isto acontece, sobretudo, porque os cães são, normalmente, uns queridos. Afáveis e leais, amam incondicionalmente os seus donos. E há muita gente a criticar esta atitude dizendo que os cães são, precisamente, cães.

Paciência, temos pena, que se lixe, são exemplos do que me apetece dizer a cada crítica. Porque um cão não é apenas um cão. Olha-te nos olhos e diz-te, desta forma, o que sente por ti. Espera por ti o tempo que for necessário. Recebe-te sempre com a mesma alegria, seja após uma separação de uma hora ou de uma semana. A energia que dele vem é de amor.

Os gatos são diferentes, mas a minha Missy é incrível! Eu sei que ela me adora.

Abraço e beijo a minha Mel e a minha Missy, olho para elas e não vejo, definitivamente, uma cadela e uma gata. Temos pena!


Miguel Mósca Nunes

07.09.21

Hoje, mais do que em qualquer outra altura, é preciso dizer não ao Mal. O Mal que persiste em revelar-se na segregação, no repúdio do diferente, na crítica ao que está fora da nossa baliza de crenças, princípios, valores, opiniões.

Desde o 25 de Abril não evoluímos grande coisa, 47 anos de pouca aprendizagem e progressão. As mentalidades continuam pequeninas, a achar que um emprego no supermercado ou a lavar escadas é para gente rasca, e que só se é alguém com um curso superior e um cargo público. O atraso é tal que continuamos a utilizar o Dr. e o Eng.º como prova de que temos nível, estirpe, linhagem. Isto é para gargalhar bem alto! Lutamos pelo título como cão por osso, ao ponto de discutirmos com quem não se nos dirija dessa forma. Altivos, fúteis, mesquinhos, a desfilar carros, roupa, joias, e a publicar fotos de férias no facebook e no instagram.

Para não falar no racismo, idadismo, homofobia, transfobia, ciganofobia, e em tantas outras formas de discriminação. Só porque se é diferente. Destilam-se ódios e críticas nas redes sociais, só porque sim. Haja paciência para tanto imbecil.

O Matay dizia, há dias numa entrevista ao Goucha, que daqui a 50 anos estamos na mesma. Se assim for, que grande merda!

Estamos a precisar, mais do que nunca, de empatia, e de espalhar Amor.

Eu tenho um sonho: que daqui a 50 anos esteja tudo diferente!


Miguel Mósca Nunes

25.06.21

Capítulo IV

 

   Início de Dezembro. Passados muitos meses desde a última vez, fomos sair à noite para o Bairro Alto. Meu Deus! Este era, há muitos anos atrás, um hábito muito ridículo, o de ir todas as sextas-feiras, em procissão, para a night. Às vezes penso nos comportamentos que tive ao longo da minha juventude e a conclusão inevitável aflora sempre, amarga. Fui, na verdade, condicionada pelos preconceitos inerentes ao meu grupo de amigos. As saídas à noite foram, quase sempre, motivadas pela posição no grupo, e não pelo puro prazer de sair e me divertir. Era in sair com os amigos e contar os acontecimentos e peripécias no dia seguinte. Sinto-me sempre desconfortável com estes pensamentos. O que me consola é que não fui a única a agir assim. Acho que com a maioria dos meus amigos da altura se passou o mesmo. E com a maioria dos adolescentes de agora. Sei que esta consciência acaba por chegar, mais cedo ou mais tarde. Se não chegar, é sinal de que sempre fomos genuínos, ou de que, o que é mais certo, ainda não crescemos e, provavelmente, continuamos com a mesma forma de estar, ridícula.

   Sair à noite com os amigos era, agora, redentor, como que uma lavagem de alma. Era eu mesma, ao contrário do que acontecia há dez anos atrás. Que tranquilidade. Não queria provar nada a ninguém. E o grupo de amigos tinha sido expurgado. Nem metade lá estava.

    Estava a ser uma noite mágica. Fomos jantar a um típico restaurante atascado, e aproveitámos todos os bocadinhos do tempo, que passava depressa. Saboreava toda a comida que estava a passar pelo prato, e sorvia toda a verborreia dos meus convivas. Estava a adorar os risos, a galhofa, os comentários, as ideias trocadas, a estupefacção em relação ao relato de tanta atribulação dos últimos tempos, a íntima e comum satisfação por ainda sermos um grupo de amigos.

   Todos estávamos mudados. Mas tínhamos a mesma essência.

   Madalena estava radiante, liberta, pela primeira vez, do pesadelo pelo qual tinha passado.

   — Já viste o borracho em que se tornou o Filipe, desde que cortou o cabelo? — perguntou ela, entusiasmadíssima.

   — Já, já. E também já reparei que pareces estopa, minha querida!

   Riu à gargalhada e retorquiu: — Ó meu amor, a vida é assim, vão uns e vêm outros. — Mais gargalhadas, com o vigor dos vinte anos que já não tinha. Chegou-se para mim, olhando-me de modo intenso, e sussurrou: — Estou feliz minha querida. Obrigado por estares sempre lá... — Não conseguiu dizer mais nada, porque a emoção brotou. Chorámos.

   — Olha, olha, estas duas estão bonitas, estão! — disse o João, ele também já um pouco entornado.

   Este João era extraordinário. Estava-se a borrifar para a opinião dos outros, e reagia militantemente a qualquer manifestação homofóbica. Tinha a vantagem de ser enorme e musculado, o que fazia com que, normalmente, qualquer pensamento agressivo não passasse à acção. Normalmente…

   Houve um episódio memorável no Hard Rock Cafe, sobretudo porque eu nunca tinha assistido ao bullying de um homem a outro homem, e também nunca tinha visto o João a reagir. Ao reparar na carinhosa festa que o meu amigo fez na cara do rapaz que estava a servir-nos os cafés, de quem já tinha sido namorado, um homem arruivado e encasacado, com um cachecol enrolado ao pescoço, sentado na mesa ao lado, disse, para quem o quisesse ouvir: “Olha agora, temos aqui gays”. “Se está incomodado com a minha presença, tem bom remédio”, retorquiu o João, sereno. Esta resposta fez ruborizar o estúpido, que se levantou e deu um empurrão ao meu amigo. Claro que o passo seguinte foi um knockout de um só murro. O néscio ficou estendido no chão. O segurança também era amigo do João e deixou-nos sair, perante o alarido que os amigos do fulano estavam a fazer: "Chamem a polícia!", gritavam.

   Nesta noite de copos estava muito bem-disposto. Era bonito. Às vezes eu olhava para ele e desejava-o. E acho que ele sentia o mesmo. Mas nunca falamos sobre isso. A sensação que eu sempre tive era a de que ele também me desejava. Havia qualquer coisa na nossa troca de olhares que me dizia isso mesmo.— E como é que é, minha linda? Porque é que o teu mais-que-tudo não veio connosco? — perguntou ele à Madalena, já no final do jantar.

— Porque ele já não é o meu mais-que-tudo.

— Ham?! Acabaram?!

— Pois, já não namoramos.

— É pá, mas estiveram juntos tanto tempo…

— É assim a vida, o parvalhão já não gostava de mim. Foi o melhor para os dois.

— Sim, rapariga. E tu és linda de morrer e tens de te dar valor.

— És tão querido João, adoro-te!

— Mas é verdade! — disse. Fez uma curta pausa, para logo a seguir atirar: — Eu adoro-te como amigo, porque senão…

— Não sejas parvo! Alguma vez?! — disse a Madalena, fazendo com que o João arregalasse os olhos.

— Então? Era assim tão difícil para ti?

— Claro! Achas?! Adoro-te e não iria nunca estragar o que temos. E estavas a dizer isso mesmo, estavas a falar na nossa amizade…

— Pois, mas seria assim tão difícil?! — insistiu.

— Não sejas criança — disse a Madalena a rir à gargalhada. — Estás a sentir o teu ego enfraquecido, é?

   O João estava já a acenar para o homem que tinha avistado ao longe, para fazer com que ele se dirigisse para a mesa onde estávamos sentados. Uns instantes depois João apresentou-o: — Malta, este é o Ricardo. Ricardo, estes são os amigos de que te falei, portanto, apresentem-se e estejam à vontade.

   Ricardo era parecido com o João só no tamanho. Era loiro e tinha olhos verdes. O João era moreno e tinha olhos castanhos. Mesmo no Inverno, parecia acabado de vir da praia, sempre que nos encontrávamos com ele.

   Quando o Ricardo se sentou ao lado do João, cumprimentaram-se com um beijo na boca sem qualquer constrangimento.

   Este grupo de agora é, de facto, especial. Cada um faz a sua vida como bem entende e não se preocupa com a opinião dos outros. Não é muito comum haver este tipo de relacionamento entre amigos. Eu conheço pessoas que não funcionam assim no seu núcleo de amizades mais próximas. Mas nós fazemos mesmo um esforço para sermos transparentes uns com os outros.

— Portanto, não tenho hipótese… — segredou o João ao ouvido de Madalena. — Que pena…

— És mesmo um parvalhão — respondeu ela. — O rapaz aqui ao teu lado, e tu a dizeres-me estas coisas…

— Ele sabe como eu sou, e como tu és mulher, não tem mal…

— Olha que porco! — retorquiu. — Pois é meu querido, mas somos amigos e eu não vou, não vou mesmo, misturar as coisas! — respondeu com uma assertividade que não deixava qualquer margem para dúvidas. E ele sabia-o.

— Sabes que no outro dia encontrei um amigo que talvez gostasses de conhecer. É giro que se farta.

— Ai não! Não vão começar aquela fase de quererem arranjar-me namorado, pois não? — disse irritada. — Deixem-me sossegada!

— Calma rapariga, só me lembrei do rapaz. Chama-se André e é uma pessoa linda, por dentro e por fora.

— Está bem, deixa ser, deixa-o estar porra…

Entretanto, mergulhámos na noite, a percorrer vários bares. E antes do Natal não nos reunimos mais.

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