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Lately

Histórias, opiniões, desabafos, receitas...

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Histórias, opiniões, desabafos, receitas...


Miguel Mósca Nunes

23.12.22

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Um bom conto de Natal seria aquele que erradicasse toda a maldade do paneta, todos os abandonos, todas as agressões, toda a infelicidade.

Um bom conto de Natal seria aquele que tivesse o condão de transformar toda a miséria em abundância.

Tudo o que conhecemos transformar-se-ía num paraíso de fraternidade, de boa comida, boa saúde, pleno emprego, satisfação, encontro com a essência do outro.

Um mundo em que uma manta quentinha pudesse cobrir todos os joelhos, junto a uma mesa com biscoitos e chá, num ambiente aquecido por uma vibrante lareira.

Um mundo sem Putins.

Um mundo sem sofrimento, sem ódio, sem racismo e segregação, sem homofobia, sem preconceito.

Um mundo só de Amor.

 

Feliz Natal!


Miguel Mósca Nunes

04.12.22

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4 de Dezembro de 1980

Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro, Ebbe Merete Seidenfaden Abecassis, Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa, Maria Manuela Simões Vaz Pires Amaro da Costa, António Pinto Basto Patrício Gouveia, e os pilotos Jorge Manuel Moutinho de Albuquerque e Alfredo de Sousa, acabavam de descolar do aeroporto da Portela, rumo ao Porto, com a ideia de jantarem no restaurante "O Escondidinho" antes de participarem no comício de encerramento da campanha do general António Soares Carneiro, candidato da Aliança Demócrática às eleições presidenciais. Depois do jantar, seria só necessário atravessar a rua para o coliseu.

Às 20 horas e 24 minutos, o atentado estava consumado, quando o avião se despenhou contra o primeiro andar da vivenda Zeca, em Camarate.

Segundo Augusto Cid, no cessna 421-A seguia documentação altamente comprometedora para certos sectores do poder: um explosivo dossier sobre Timor, informações confidenciais sobre a situação na Polónia, um dossier sobre os implicados no assassinato do industrial Joaquim Torres, altamente lesivo para a imagem do presidente da República Ramalho Eanes, e um relatório detalhado sobre o destino dado às várias centenas de milhares de contos atribuídos ao Fundo de Defesa do Ultramar. Seria, assim, "imperioso travar Sá Carneiro e impedir, por todos os meios, que ele chegasse ao Porto, como providenciar para que toda a documentação que o acompanhava não caísse em mãos erradas. (...) Camarate visou essencialmente esses dois objectivos. (...) Os traidores com os quais Francisco Sá Carneiro havia prometido ajustar contas após as eleições presidenciais, no famoso discurso do Hotel Sheraton, terão certamente jogado aqui um papel crucial. Suspeitando que o primeiro-ministro estava já ao corrente das suas actividades e conhecia a identidade dos principais cabecilhas, a sua sobrevivência política dependia da eliminação física do lider do Partido Social Democrata antes de consumado o acto eleitoral e conhecidos os seus resultados." *

A VIII Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar ao Acidente de Camarate deu como certa a existência de atentado, através da colocação de uma bomba no aparelho, e concluiu que o Fundo de Defesa Militar do Ultramar foi alvo de uma utilização abusiva ao longo dos anos. Ficou igualmente provado que Adelino Amaro da Costa estava a investigar as operações de venda de armas que envolviam o Estado Português, em particular, a venda de armas ao Irão. 

O relatório final da X Comissão Parlamentar de Inquérito à tragédia de Camarate reafirma que a queda do avião em Camarate, na noite de 4 de dezembro, deveu-se a um atentado.

Contudo, em 2022, 42 anos depois, estamos exactamente na mesma, com uma classe política corrupta, hipócrita e vendida ao poder económico, e que continuará a fazer todos os esforços para que as suas artimanhas e esquemas de usura do erário público se mantenham.

Em 2022 estamos exactamente na mesma, sem haver consequências para este crime hediondo, e sem a nomeação dos responsáveis de um atentado que nos envergonha a todos, neste atoleiro que é Portugal.

* Camarate, Augusto Cid, 1984, Distri Editora (5.ª edição)

 


Miguel Mósca Nunes

09.11.22

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Sim, já cheira a Natal!

Cá em casa há aroma a canela e erva-doce, das duas fornadas de broas dos últimos dias. Mas o mais importante é o Espírito de Natal, que eu espero vir a sentir este ano. Quero sentir a calma, o apaziguamento, o entregar os pontos, um sentimento que me preenchia todos os anos e que, nos últmos anos, tem andado ausente.

Quero sentir que, apesar de todos os contratempos, de todo o rebuliço, de toda a azáfama, o que é mesmo importante é o Amor, são as pessoas que amamos e a marca que nelas deixamos.

O Natal é uma época de partilha, em que abrimos os nossos corações.

 


Miguel Mósca Nunes

16.10.22

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Vou falar-vos de um assunto que está relacionado com o Natal, pelo facto de, em termos temporais, ter culminado em Dezembro. Mais precisamente, em 4 de Dezembro de 1980. Lembro-me deste dia como se fosse hoje, por ouvir o jornalista da RTP, Raúl Durão, anunciar uma tão chocante notícia ao país: a morte do então Primeiro-Ministro de Portugal, Francisco Sá Carneiro.

Numa quinta-feira fria de Dezembro, tinha eu acabado de jantar e estava sozinho em casa com a minha mãe. O meu pai chegaria mais tarde por estar ainda a trabalhar. E aquela imagem televisiva a preto-e-branco ficou impressa na mimha memória. Esta é a explicação para o fascínio que me levou a ler, nestes últimos tempos e de forma compulsiva, cinco livros, que recomendo convictamente, para quem quer perceber um pouco melhor as sinuosidades da política portuguesa e mundial, e a história recente do nosso país.

Refiro-me, por ordem cronológica de leitura, aos seguintes títulos: "Francisco Sá Carneiro, Solidão e Poder", de Maria João Avillez, "Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro", de Cândida Pinto, "Sá Carneiro", de Miguel Pinheiro, "Camarate, Sá Carneiro e as Armas para o Irão", de Frederico Duarte Carvalho e, finalmente, "Camarate", de Augusto Cid.

Leituras fascinantes estas, sobre o percurso de vida desta figura marcante, que atravessou a ditadura de forma quase invisível, até chegar a deputado da Ala Liberal, na Assembleia Nacional, em 1969, com intervenções marcadamente anti-regime, e depois a Primeiro-Ministro e ao fatídico dia 4 de Dezembro, numa altura em que o país estava ainda num processo de adaptação à democrecia, com o poder dos militares a fazer-se sentir, nomeadamente através do Conselho da Revolução. Leituras que relatam, sobretudo, as dificuldades que atravessou, o incómodo que a sua forte personalidade gerou, as intrigas e as traições por parte dos seus opositores, e dissidentes no seu próprio partido.

E, por outro lado, quem não aprecia um bom romance, este muito ricamente retratado por Cândida Pinto.

E que dirão os leitores sobre a conclusão a que se chegou, após sucessivas Comissões de Inquérito Parlamentar ao caso Camarate: ficou provado que se tratou de atentado, embora não tenham sido determinados os culpados.

E que curiosos são os indícios de participação de militares portugueses e da CIA no atentado, cujo móbil seria o tráfico de armas para o Irão (embora a última Comissão de Inquérito não tenha conseguido estabelecer um nexo de causalidade entre o atentado, o referido tráfico e a intervenção da CIA). Há rumores da ligação do Fundo de Defesa Militar do Ultramar a esta actividade, negada em entrevista ao Diário de Notícias, pelo General Ramalho Eanes, responsável institucional pelo referido organismo entre 1976 e finais de 1980 (ano em que foi extinto). O General reiterou que, naquele período, não foram assumidos quaisquer compromissos confidenciais, e que o fundo não serviu, após o 25 de Abril, para comprar ou vender armamento. A ligação ao tráfico de armas justificaria o interesse na eliminação de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, já que estes dois estariam a investigar e a preparar-se para denunciar essa situação.

Muitos outros e surpreendentes indícios são revelados, argumentos de peso para suscitar a curiosidade dos leitores.

E que vontade tenho de saber como está agora o magnífico apartamento da Rua D. João V, onde viveram maritalmente Snu e Francisco. Coisa dificílima, que não me parece que alguma vez seja concretizável, embora mantenha uma acesa esperança.

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