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Lately

Histórias, opiniões, desabafos, receitas...

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Histórias, opiniões, desabafos, receitas...


Miguel Mósca Nunes

29.10.22

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Desta vez trago um livro que é muito especial para mim, sobretudo porque fui eu que o escrevi e é o primeiro que publico.

Trata-se de uma história que nasceu do Amor, porque é baseado numa fantasia que inventei para os meus filhos, quando eram pequenos.

Dois amigos, residentes na Malveira, vivem uma aventura fantástica e sobrenatural, que os leva a experiências por vezes aterradoras.

A minha ideia sempre foi a de apresentar uma narrativa despretensiosa, por vezes simples, acessível a uma camada jovem, mas que pudesse ser lida por gente mais madura. Julgo que pode ser lida por todos os que gostam de uma boa história com ingredientes referentes ao Halloween e ao Natal, embrulhada em mistério.

É também uma homenagem à Malveira, terra que me acolheu desde 2004, e, tenho quase a certeza absoluta, é a primeira história de ficção cuja acção decorre nesta vila.

Esclareço já que não sou nenhum santo, e quem pensa que tenho essa pretensão, ou que quero ascender a algum estado de beatificação, não é objecto da minha preocupação e não serve de travão para que eu expresse aquilo em que acredito. Por isso mesmo, reitero que o livro é um veículo para mensagens de empatia, igualdade de direitos, solidariedade, de abraçar a diferença, e da ideia fundamental de que a opinião dos outros não tem qualquer importância quando só serve para destruir os nossos sonhos.

Boas leituras e feliz Halloween (o mesmo será dizer, aproveitem o pouco tempo livre para amar)!


Miguel Mósca Nunes

07.09.21

Hoje, mais do que em qualquer outra altura, é preciso dizer não ao Mal. O Mal que persiste em revelar-se na segregação, no repúdio do diferente, na crítica ao que está fora da nossa baliza de crenças, princípios, valores, opiniões.

Desde o 25 de Abril não evoluímos grande coisa, 47 anos de pouca aprendizagem e progressão. As mentalidades continuam pequeninas, a achar que um emprego no supermercado ou a lavar escadas é para gente rasca, e que só se é alguém com um curso superior e um cargo público. O atraso é tal que continuamos a utilizar o Dr. e o Eng.º como prova de que temos nível, estirpe, linhagem. Isto é para gargalhar bem alto! Lutamos pelo título como cão por osso, ao ponto de discutirmos com quem não se nos dirija dessa forma. Altivos, fúteis, mesquinhos, a desfilar carros, roupa, joias, e a publicar fotos de férias no facebook e no instagram.

Para não falar no racismo, idadismo, homofobia, transfobia, ciganofobia, e em tantas outras formas de discriminação. Só porque se é diferente. Destilam-se ódios e críticas nas redes sociais, só porque sim. Haja paciência para tanto imbecil.

O Matay dizia, há dias numa entrevista ao Goucha, que daqui a 50 anos estamos na mesma. Se assim for, que grande merda!

Estamos a precisar, mais do que nunca, de empatia, e de espalhar Amor.

Eu tenho um sonho: que daqui a 50 anos esteja tudo diferente!


Miguel Mósca Nunes

07.06.21

Capítulo II

 

 

   Conheci Madalena numa fase complicada da sua vida, tinha ela 19 anos. Nessa altura já estava a ser atormentada por um mar de dúvidas em relação aos estudos e ao futuro profissional. Apesar de tudo, detectei nela um fulgor persistente, característica daquelas pessoas que, a cada dissabor, a cada contrariedade, se levantam com uma renovada energia.

   Gostei logo dela. Senti uma confortável empatia logo que trocámos as primeiras palavras. Creio que foi uma sensação mútua e mantivemos, desde aí, uma profunda amizade.

   É um relacionamento transparente, que se traduz numa absoluta sinceridade. Partilhamos até as mais duras opiniões sobre a outra, e não guardamos nenhuma crítica, por mais azeda e cortante que seja. Achamos que só assim é que se consegue manter um fiel e duradouro vínculo de afecto. Um vínculo tão puro que nos torna quase irmãs, faltando apenas a ligação de sangue. Há irmãs que não são tão próximas quanto nós. Parece sermos fruto de uma gravidez gemelar.

   Seria uma vã tentativa a de esconder o nosso íntimo uma da outra porque temos em comum a tal capacidade apurada de percepção. Adivinhamos os nossos pensamentos e os de algumas pessoas. Pena é que não consigamos canalizar este dom para quem queremos, e quando queremos. Vamos vivendo assim, confrontadas com o que a vida nos oferece, como que resignadas com esta sina que, na maioria das vezes, é violenta.

   Ninguém consegue imaginar o que é isto de saber o que os outros estão a sentir num dado momento. O ódio, o desespero, a mesquinhez, o mal querer. Dá vontade de desaparecer, para o mais longe possível. E o mal-estar não passa logo. Temos de esperar. E, depois, a torturante memória não nos deixa em paz.

   No fim de Setembro de 2001, após um Verão atípico, marcado por noites frias, Madalena foi ter a casa de Vítor, depois do trabalho, estimulada pela ideia de jantar fora, ainda para mais numa sexta-feira, num restaurante com um ambiente romântico, pensando que seria um bom fogo para a relação que há muito estava morna.

   Podia ser o princípio de uma excelente noite.

   Quando ele abriu a porta estava em cuecas, vestia apenas uma camisola de manga curta e calçava uns chinelos que já não eram beijes.

   — Olá amor — disse ele. — Entra. Vai dar futebol — atirou, começando um corte preventivo das hipóteses de ela dar conta do seu sossego.

   Tinha chegado a casa há cerca de meia hora e já tinha emborcado uma cerveja, dois sumos de pêra e comido, sôfrego, dois pães de Mafra com manteiga, queijo e fiambre. “Estás a ficar obeso”, pensou ela, a olhar para a lipídica protuberância que se estava a formar no ventre.

   — Sabes uma coisa? —  disse entusiasmada. — Vamos jantar fora.

   — Quando, gorda? Hoje? — O namorado estava a ver a sua noite de repouso ir por água abaixo.

   — Claro! — Já adivinhava o que ele queria mas continuou. — Vamos a um restaurante indiano muito agradável, já lá jantei com os meus pais e é fabuloso, tem um ambiente espectacular.

   — Ó Madalena, porra, eu quero ficar sossegado! — chinfrinou de repente, colocando a mão sobre o comando da televisão pousado no braço do sofá. — Estou cansado, quero ver se não me chateio muito hoje. Vai dar o jogo daqui a um quarto de hora.

   Madalena não suportou esta reacção e disse: — Muito bem, com que então queres ver se não te chateias... Está bem!

   — Pronto, agora ficas zangada...

   — Não, deixa estar, eu entretenho-me sozinha.

   — Ó Madalena...

   — Ó Vítor, deixa estar, ‘tá bem! — Estava a ferver. Mais uma vez ele não queria sair com ela. “Isto está a ficar lindo”, pensou. “ Prefere ver televisão a sair comigo... se é assim agora, como será depois do casamento?”.

   Conheceram-se na universidade cinco anos antes. Eram de turmas diferentes mas viam-se na biblioteca e no refeitório, também bastantes vezes nos corredores, e começaram a cumprimentar-se, no meio da algazarra de vozes e ruídos, dos talheres a cair, dos pratos carregados de péssima comida e da sinfonia de panelas e tachos.

   A atracção despertou. Poucos meses passaram até o namoro começar, com o habitual beijo lento, táctil e experimental, sempre húmido e trémulo. Tanto aparato...

   — Olha Vítor, eu vou para casa — disse.

   — Ó pá, vamos jantar, pronto. — O prato frio.

   — Por amor de Deus, não faças o favor!

   — Então o que é que queres, Madalena... — disse, num tom teatral e suplicante.

   — Vou para casa, deixa-te estar sossegado, na tua casinha, que eu vou à minha vida! — cuspiu a gritar. Olhou-o e disse: — Estou farta e quero acabar com esta merda de coisa que temos um com o outro. — Pegou, num movimento ágil e rápido, no casaco que tinha colocado no sofá, levando colado um engordurado guardanapo de papel, e saiu porta fora.

   Ele ficou a olhá-la, sem expressão.

   Pela primeira vez tinha deixado transparecer para Vítor que sabia que ele já não era o mesmo e que não estava satisfeita. Cinco anos... Porque é que as pessoas mudam? Porque é que os homens mudam? A entrega, a partilha, a cedência, para quê?

   É tudo tão lindo no princípio, a construção da teia, o ardil a ser cozinhado. Tudo tão preenchido de tolerância, a luz dos teus olhos tão intensa.

   Na rua, a passar por entre os carros estacionados, a cruzar-se com caras sérias de gente fechada, a calçada suja, os manequins sem cabeça das lojas de roupa, os cheiros de sempre, não quis saber de mais nada.

   Sentia-se cansada. O incómodo da consciência de que o seu namoro não estava bem existia há algum tempo e isso estava a tornar-se mais evidente. Mas não tinha certezas... não conseguia sentir nada vindo dele, dado o envolvimento emocional que os dois têm... o dom não funciona com ele.

   “Se calhar exagerei na reacção...”

   Tinham de clarificar a situação, ela tinha de saber o que se estava a passar com ele.

   Dali seguiu para casa e, depois de dizer aos pais que estava muito cansada deitou-se na cama com o candeeiro de cabeceira aceso. Ainda tentou ler para se distrair mas não conseguiu. Virou-se para a janela e, na transparência alaranjada do cortinado, lembrou-se do fim-de-semana em Marvão, o primeiro que passaram juntos desde que se conheceram.

   A paixão a arder-lhes no peito. Os corpos sempre colados, o contacto físico constante, as mãos a brincar umas com as outras. À noite, labaredas de prazer.

   — Posso?

   Desceu dos pensamentos e viu outra vez o cortinado alaranjado. E depois percorreu a penumbra do quarto até ver a sua mãe a espreitar, à entrada. Só lhe via a cabeça, estando o resto do corpo escondido pela porta.

   — Claro, mãe, entra.

   — Não queres comer nada? — A voz calma, a habitual tábua de salvação.

   — Agora não, mãe, lanchei um copo de leite e queria terminar a digestão. Quando é que jantam?

   — Olha filha, o jantar está feito. Jantamos quando vocês quiserem. — Conceição olhava para a filha como sempre olhou quando sentia que ela não estava feliz, com uma inquietação desmedida e com uma vontade incontrolável de esmiuçar a aflição que sabia que a sua cria estava a sentir, por forma a tranquilizar-se e poder fazer alguma coisa, quanto mais não fosse acalmá-la.

   Tem a convicção de que, a partir do momento em que deitamos filhos ao mundo, nunca mais há sossego; mesmo antes, quando os filhos ainda estão no ventre, já tudo mudou.

   O instinto maternal fica, desde essa altura, irreversívelmente aceso. Sempre que há alguma preocupação com os filhos, esta ideia surge-lhe mais clara do que nunca.

  — Madalena — disse, fazendo uma pequena pausa antes de mergulhar no assunto, e sentindo, com uma inexplicável certeza, que a filha sabia o que a mãe lhe ia perguntar —, passa-se alguma coisa? — Nova pausa, com um olhar tão acolhedor e tão difícil de resistir.

   Sentou-se à beira da cama e fez uma festa na cara da filha. — Eu sei que não estás bem, que há algum problema, porque tu não me pareces feliz, filha.

   Mais uma pausa, desta vez muito breve, para logo depois começar no assunto a fundo. — Eu sinto que tu e o Vítor não andam bem, e isso tem-se reflectido no teu comportamento. Andas infeliz, tens comido pouco e estás mais irritadiça. O que é que se passa?

   — Sei lá o que é que se passa. — Conseguiu suster as lágrimas e continuar. — As coisas estão diferentes, mãe. Não sei... parece que ele está mais distante, está a assumir uma postura que não é normal. Ainda nem casámos... Não é que depois do casamento seja aceitável, mas se uma pessoa já tem um comportamento destes antes de se casar, meu Deus, então como será depois! — O seu nervosismo fazia com que falasse a correr. — Eu pergunto para quê? Nada disto está a fazer sentido... eu já pensei tanto disparate, perguntei-me se ele tem alguém, já dei voltas à cabeça a tentar saber o que é que se passa e não consigo descortinar nada. Porque é que ele está diferente?

   — Ó filha, calma. Diz-me uma coisa, já falaste com ele, já lhe perguntaste o que é que se passa?

   — Não mãe, directamente não. Discuti com ele há bocado... — Os olhos transluziam. — Disse-lhe que estava farta.

   Começou a fazer uma prega na colcha, com as mãos a tremer. — Ó mãe, já não é a mesma coisa, já não olha para mim da mesma maneira, não sinto a paixão que eu sei que ele sentia no princípio, mãe!

  — Mas Madalena, eu acho que devias falar com ele. Como é que podes ter desconfianças, ainda para mais tão sérias quanto essas, sem falar com ele, sem ouvir o que ele tem para dizer. Falem com calma, abram o coração.

   “Não é normal que duas pessoas que namoram não falem abertamente dos problemas duma relação que já tem anos. Quem sabe, até pode ser que ele esteja a passar por uma fase complicada.”

   Conceição viu o olhar sério e um pouco perplexo da filha e tranquilizou-se por constatar que ela se acalmava. Pegou-lhe nas mãos e sorriu, irradiando ternura.

   Estiveram assim por um breve momento, suficiente para que Madalena relembrasse a segurança que a mãe lhe transmitira ao longo da sua infância e adolescência, sempre que algo a perturbava.

   — Quando quiseres jantar diz-me. — Levantou-se para sair. — Já me esquecia de te dizer que a Mafalda ligou, preocupada contigo, claro está, e disse que vem cá ainda hoje, se tiver tempo. Tens ali uma grande amiga.

   — Eu sei mãe... eu sei.

   Nessa noite Madalena teve um sono agitado. Viu o namorado a gritar-lhe, colérico e vermelho de raiva, com as veias do pescoço dilatadas e os punhos cerrados, mas não havia palavra, não havia som. Os pais discutiram numa cozinha com azulejos verde-pálido, que não era a de sua casa, e viu as pernas da mesa, colocada no centro da divisão, partirem-se devido à fragilidade da madeira provocada pela invasão de tropas de caruncho. Toda a loiça que estava em cima da mesa partiu-se e o chão de mármore ficou coberto de facas, todas elas espetadas, mas sem provocarem qualquer fractura. Como se o chão se tivesse transformado, de repente, em barro cru. A sua mãe chorava e afundava-se no barro, que se tinha transformado em lodo.

   Só se lembrou do sonho uns minutos após ter acordado, desaparecendo, para sempre, da sua memória consciente.

   Aproveitou o sábado para descansar.

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