O Contador de Histórias
25.10.24
Cantamos juntos e cantaremos, desde sempre e para sempre.
Gravado no Set de Copos, na Malveira, com gente de bem.
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O Contador de Histórias
25.10.24
Cantamos juntos e cantaremos, desde sempre e para sempre.
Gravado no Set de Copos, na Malveira, com gente de bem.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.
O Contador de Histórias
24.10.24

O Marco Paulo era a Voz, mas era muito mais do que isso. No único contacto que tivemos, foi um querido, amável e interessado no que lhe tínhamos para dizer. Por detrás das câmaras era o Marco, interessado pelo outro, em ouvir o outro, em olhar para o outro. E tinha, por acaso, um vozeirão de arrepiar.
Estávamos no intervalo, à espera para actuar, no seu jardim, onde decorriam as gravações do “Alô Marco Paulo”, um pouco afastados daquele pequeno palco de madeira e, de repente, ouvimo-lo cantar. Sim, o Marco Paulo, a canta a capella, sem microfone, a brindar aquelas trinta e poucas pessoas que estavam a assistir ao programa, o chamado “público”, com uma voz que não parecia sair dele, dada a projecção e potência. Nós estávamos mais afastados, a cerca de trinta metros, mas era como se estivessemos ao seu lado. “Rita, é o Marco Paulo que está a cantar!”.
Passados uns longos e ansiosos minutos gravámos o que lá fomos cantar. Cantar para o público ali presente e para a audiência do programa, mas, sobretudo, para ele. E esta certeza vem do que ouvimos a seguir, quando nos entrevistou, e no que nos disse depois, quando as câmaras não estavam a gravar. Volto a dizer, foi um querido, e deu-nos a imagem do que é ser um grande artista: humilde, simples, amável… boa pessoa.
Uma boa pessoa que, por acaso, tinha a melhor voz masculina que Portugal alguma vez ouviu.
O Contador de Histórias
24.05.23

Morreu Tina.
A mulher revolucionária, que se emancipou quando ninguém pensaria que seria possível, numa indústria que vangloria a juventude e despreza o que é maduro. Neste nosso país, uma roqueira quarentona não teria qualquer hipótese, nem hoje e muito menos nos anos 80. Quebrou, portanto, com o idadismo que a levaria a não tomar qualquer iniciativa para recomeçar. Estava nos Estados Unidos (ali, a idade não é tão derrotante), mas era, sobretudo, Tina. E por ser Tina, concretizou o maior regresso alguma vez visto na história da música, com o álbum Private Dancer. Aos 44 anos.
Deu com os pés num marido abusivo, que a esmurrava e humilhava, mesmo na presença dos filhos, deixando para trás todos os direitos de meia vida em cima de um palco suado, exigindo apenas o nome: Turner.
Esta mulher negra, nos anos 70 do século passado (1976), teve a coragem de devolver, ao monstro que a maltratou durante anos, uns valentes golpes (foram poucos), de o abandonar no hotel onde ambos estavam hospedados, e entrar numa perplexa recepção de hotel do outro lado da rua, de cara intumescida e ensanguentada, para pedir que a deixassem ficar só por aquela noite.
Entre 1976 e 1983, um período apelidado por muitos de nostálgico, foi insistindo e continuando a suar em cima do palco, com uma garra inigualável, até que lançou o cover Let's Stay Together, de Al Green, acendendo de novo o sucesso. Já não era, há muito, a Tina do Ike.
Dotada de uma voz poderosa mas muito característica, sublimou o seu passado para o transformar num futuro que se revelou generoso. Sozinha, procurou uma identidade artística que se afirmou com What's Love Got to Do with It, ainda que fosse uma canção previamente gravada pelo grupo Bucks Fizz. E foi assim até se retirar. Inconfundível.
Tina Turner é mais uma referência que desaparece, um monumento cantado da minha contemporaneidade. As memórias da minha adolescência estão a esvair-se, com estas perdas sucessivas que fazem com que eu tenha o vislumbre do meu próprio fim.
O Contador de Histórias
17.11.22

Adele já ascendeu a um patamar onde muito poucos artistas chegam.
Esta cantautora é uma extraordinária manipuladora de emoções, através da maneira como canta, mas, sobretudo, através do que escreve, com uma densidade que a aproxima de Stevie Wonder, Paul McCartney ou Neil Young.
Easy On Me ou To Be Loved estão ao nível de Lately ou de Overjoyed, de The Long and Winding Road ou de Blackbird, de Heart of Gold ou de Philadelphia.
A métrica, a construção frásica, as figuras de estilo, a escolha das palavras, e a ordem como elas aparecem nos versos, são absolutamente geniais. Emocionam-nos de forma descontrolada, fazem-nos pensar nas questões essenciais das nossas vidas, elevando-nos a um plano onde pensamos que há muito poucas coisas que importam.
Cada vez que a ouço, faço um esforço para não me desmanchar, porque Adele é única no seu canto. A rouquidão e a potência misturadas com a técnica, permitem-lhe passar sucessivamente de voz de cabeça para voz de peito com uma perfeição inigualável, e brincar com as transições e com os falsetes como ninguém.
A juntar a esta mestria, existe a emoção, o lamento, a profundidade de uma voz que é das mais belas que já ouvi.
O Contador de Histórias
10.11.22

Gal morreu.
Aquela que se estreou ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia.
Aquela que melhor cantou Desafinado, de António Carlos Jobim, e que cantou Nada Mais, a sua versão de Lately, de Stevie Wonder, levando-nos a níveis celestiais de alegria e júbilo. Era inigualável.
Aquela que registou dos melhores duetos musicais, com Jorge Ben no tema Que Pena, com Tim Maia em Dia de Domingo, com Bethânia em Sonho Meu, ou com Chico Buarque no incrível Samba do Grande Amor.
Aquela que acreditava numa conexão espiritual entre os seres humanos, e que esperava ter uma existência para lá da sua morte.
Aquela que nunca engravidou por ter uma obstrução nas trompas, e que adoptou uma criança, resgatada, assim, da probreza e da miséria.
Aquela que, em 1975, gravou Modinha para Gabriela, para a abertura da telenovela da Rede Globo Gabriela.
Aquela que cantou, de forma absolutamente visceral, Aguarela do Brasil e Festa do Interior.
Aquela que cantou, de forma absolutamente sublime, Força Estranha.
Aquela que, nos anos 80, recuperou da sabotagem de um projecto, Fantasia, previsto para estar em cena durantes muitos meses no Canecão, sendo um fiasco porque, na estreia, e após três dias de ensaios, a mesa de som estava completamente desmarcada, e todos os canais trocados.
Aquela que, em 1994, acidentalmente, mostrou as mamas, num espectáculo de Gerald Thomas e, ainda assim, não parou de cantar.
Aquela que sempre se assumiu como bissexual.
Marília Gabriela disse, numa entrevista à cantora, que a memória musical de toda uma geração passa, consistentemente, pela voz de Gal Costa. A memória viva musical dessa geração. É verdade, porque essa voz de soprano brilhante, límpida, suave e potente, é inesquecível.
Morreu Gal Costa, a Voz do Brasil.
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